Análise do Filme Cidadão Kane (1941) – Orson Welles

Critica de Filmes

Data de lançamento: 16 de junho de 1941 (Brasil)

Diretor: Orson Welles

Prêmios: Oscar de melhor roteiro original

Duração: 1h 59m

Roteiro: Orson Welles, Herman J. Mankiewicz, John Houseman, Molie Kent, Roger Q. Denny

Música: Bernard Hermann

Elenco: Orson Welles; Joseph Cotten; Dorothy Comingore; Everett Sloane; Ray Collins; George Coulouris; Agnes Moorehead; Paul Stewart; Ruth Warrick; Erskine Sanford; William Alland

Edição: Robert Wise

Antes de Cidadão Kane, o cinema era uma promessa. Depois dele, tornou-se consciência. Em 1941, um jovem de apenas 25 anos chamado Orson Welles ousou desafiar as convenções narrativas, a estrutura do poder e até a própria ideia de verdade. O resultado foi um dos filmes mais comentados e estudados da história — não apenas pela técnica revolucionária, mas pela inquietação que provoca em quem o assiste.

Tive o privilégio de revisitar essa obra durante meus estudos na Escola Livre de Cinema, sob a orientação do professor Milton Biscaro. Foram onze filmes de Welles, analisados quadro a quadro, como quem decifra o pensamento de um autor que transformou a lente em espelho — refletindo tanto seus personagens quanto a própria condição humana. Cidadão Kane, em especial, se impõe como um exercício de poder, solidão e memória.

A história começa com um aviso — “Proibida a entrada” —, arames farpados e uma tensão que se instala antes mesmo da palavra que se tornaria símbolo: “Rosebud”. Uma palavra que desperta inquietação e, ao final, ecoa como o vazio que resta quando tudo o que se possui é apenas aparência.

Estrutura e linguagem: Welles constrói sua narrativa de forma fragmentada, como um mosaico de lembranças contadas por diferentes vozes. O espectador não recebe respostas, mas versões. Essa estrutura, até então incomum, quebra a linearidade e obriga o público a participar da investigação — não apenas de quem foi Charles Foster Kane, mas do que significa ser alguém diante do olhar dos outros.

O filme é composto por nove blocos narrativos, que se entrelaçam em uma linha do tempo não linear, revelando fragmentos da vida de Kane através de entrevistas, lembranças e elipses. Cada parte contribui para montar — e desmontar — a imagem do protagonista.

Recursos visuais e elipses de tempo

Do ponto de vista técnico, Cidadão Kane foi um salto. O uso da profundidade de campo, da iluminação expressionista e dos ângulos baixos criou uma estética que se tornaria referência para o cinema moderno.

Os efeitos visuais são criados mais por perspectiva do que por trucagem. Welles transforma o próprio material fílmico em metáfora: a foto fixa vira parte do filme, e o filme vira foto fixa.

A transição entre planos se dá por elementos visuais ou sonoros que conectam uma cena à outra, como o copo na mesa que, em corte, se transforma na roda do carro de quem parte.

O uso das elipses também é exemplar:

Elipse visual: a passagem de tempo ocorre pela luz, pela montagem ou por fusões de imagem;

Elipse sonora: o som conduz a mudança temporal antes da imagem;

Elipse de conteúdo: a ação não é mostrada diretamente, mas sugerida pelos ruídos e reações dos personagens.

Esses recursos tornam o filme uma experiência ativa, onde o público completa o que o olhar não alcança.

As nove partes e o poder do olhar

Introdução/Abertura – processo imersivo; muitas informações visuais; fusões e luz na janela criam um início quase onírico.

O documentário – propositalmente “chato”; um registro factual e impessoal, típico da época, que não ajuda a entender o homem por trás da imagem pública.

Entrevista com a esposa – movimentos de câmera sofisticados; a superfície começa a se romper.

A visita à biblioteca – elipse que nos transporta à infância de Kane.

Entrevista com o funcionário – fragmentos do cotidiano e da construção do império.

Os amigos e o segundo casamento – elipses, montagem paralela e a exposição da vida íntima.

Volta às entrevistas – Susan retorna, trazendo novas lacunas.

Entrevista com o mordomo – o olhar final sobre o declínio.

A resposta – que não responde, apenas devolve o enigma.

Rosebud e o espelho de nós mesmos ou apenas um quebra cabeça?

Assistir a Cidadão Kane hoje é entender que a genialidade de Welles não está apenas nas inovações visuais, mas na maneira como ele expõe a fragilidade humana por trás do mito. Kane é todos nós — tentando preencher o vazio com ruído, acumulando vitórias que não nos pertencem e buscando, no fim, algo simples que perdemos pelo caminho.

“Rosebud” talvez não seja uma palavra sobre o passado, mas um lembrete do que deixamos de ser.

Onde assistir: https://www.dailymotion.com/video/x90pugo (dublado)

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