A IMPORTÂNCIA DO LIVRO TELEVISIVO, DE J.B. CARDOSO, PARA O CINEMA BRASILEIRO

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No dia 19/05/2016, ganhei de presente do meu grande amigo, cineasta e diretor de fotografia Luiz Luna, o livro Cenário Televisivo – Linguagem Múltipla e Fragmentada, de J. B. Cardoso. Na dedicatória, ele escreveu:

“Este livro vai permitir que você perceba além da cena. Perceba que o papel da cenografia vai além: é dramaturgia.”

E foi exatamente isso que aconteceu. A partir dessa leitura, comecei a experimentar um novo olhar: a cenografia deixou de ser apenas um elemento visual e passou a ser um componente narrativo essencial — capaz de contar uma história por meio das cores, texturas, volumes e objetos.

Nesta semana, gostaria de revisitar essa obra que se tornou referência nos estudos de linguagem audiovisual no Brasil. Em Televisivo, Cardoso investiga como a televisão — seus formatos, suas dinâmicas de produção e sua estética — influenciou profundamente a construção do cinema brasileiro contemporâneo.

O autor examina desde a formação histórica da TV até suas transformações tecnológicas, revelando como esses processos impactaram o modo de filmar, montar e dirigir atores. O livro evidencia que grande parte da identidade audiovisual brasileira foi moldada pelo diálogo constante entre televisão e cinema, tanto na estética quanto na narrativa e na maneira como aprendemos a ler imagens.

Na contracapa, José Dias afirma:

“A cenografia é uma arte difícil, que responde tanto à sensibilidade do criador quanto às normas que regem o processo de criação artística.”

Essa reflexão abre um ponto valioso: a importância da cenografia na construção narrativa, seja no cinema, no teatro ou na televisão.

A cenografia teatral tem um desenvolvimento processual. Ela nasce e amadurece ao longo dos ensaios, cresce junto com os atores e com o espetáculo. Já a cenografia cinematográfica ou televisiva é industrial: precisa estar pronta antes do início das gravações. É imediatista, mas nem por isso perde valor — pelo contrário, também carrega enorme força narrativa.

No capítulo II (p. 31), Cardoso destaca um marco fundamental:

Em 1943, quando o polonês Zbigniew Ziembinski dirigiu Vestido de Noiva, de Nelson Rodrigues. A cenografia, assinada por Tomás Santa Rosa Júnior, inaugurou uma nova fase moderna no teatro brasileiro. Santa Rosa, que também foi desenhista e pintor, criou capas de autores como Jorge Amado, Drummond, Mário de Andrade e Graciliano Ramos.

Compreender essa história é essencial para entender como a cenografia se consolidou como linguagem e como ela atravessa a arte contemporânea.

Cardoso mostra ainda como os profissionais precisavam improvisar e se reinventar diante das limitações técnicas das primeiras décadas. Um exemplo curioso é o programa Show na Taba (1950), da TV Tupi — situações que ensinam resiliência e criatividade diante de condições adversas.

Outro marco importante é Irmãos Coragem, lançada em 08 de junho de 1970. Com texto de Janete Clair e direção de Daniel Filho, essa novela marcou o surgimento da primeira cidade cenográfica da TV Globo: Coroado.

Em 1973, já com mais experiência, a emissora construiu outra grande cidade cenográfica em Santa Cruz, Zona Oeste do Rio de Janeiro — um salto significativo na produção televisiva brasileira.

Por que esse livro é importante?

Porque ele nos permite ver a evolução cenográfica, reconhecer de onde tudo surgiu e perceber como cinema, televisão e teatro brasileiros são ricos e sofisticados.

Para nós, estudantes e profissionais, é um material fundamental para compreender processos, identificar referências e enxergar as possibilidades narrativas que emergem da cenografia.

Certamente foi um dos livros mais importantes da minha formação — não apenas pela leitura, mas por tudo que despertou em mim: um entendimento mais profundo de onde nossa arte se formou e de como diferentes cenários podem ser construídos e recriados a partir de pesquisa, técnica e imaginação.

Por isso, indico esta leitura — necessária, inspiradora e essencial.

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