Marcelo Kricheldorf
Alfred Hitchcock exerceu uma grande influência na carreira de Martin Scorsese, principalmente através de suas inovadoras técnicas de câmera, a exploração da psicologia dos personagens (culpa e paranoia) e o uso de narrativas visuais para criar suspense e ansiedade.
Scorsese adaptou as técnicas de edição rítmica de Hitchcock para maximizar o impacto emocional. Um exemplo notável é a inspiração da famosa cena do chuveiro de Psicose para as sequências de boxe em Touro Indomável (Raging Bull). Em ambos os casos, a edição fragmentada e o uso de ângulos de câmera subjetivos (como os POV – Point of View hipnóticos de Jake LaMotta) criam uma sensação de desorientação e intensidade psicológica, em vez de violência gráfica explícita.
Os filmes de Hitchcock frequentemente exploram a culpa, a obsessão e a paranoia. Scorsese, com suas próprias raízes católicas e interesse na moralidade humana, aprofunda esses temas em seus protagonistas complexos e muitas vezes autodestrutivos. Ele citou especificamente o senso de culpa e paranoia de O Homem Errado (The Wrong Man) como uma grande influência no estilo de filmagem de Taxi Driver, utilizando movimentos de câmera para refletir o estado mental perturbado de Travis Bickle.
Hitchcock era um mestre em usar a câmera para contar a história e manipular as emoções do público, fazendo-os sentir-se como voyeurs. Scorsese utiliza essa abordagem, criando uma atmosfera tensa e imersiva. Filmes como Cabo do Medo (Cape Fear), que é um remake direto, e Ilha do Medo (Shutter Island) são os mais “hitchcockianos” de sua filmografia, mergulhando no terror psicológico e nos plot twists.
Em Cabo do Medo Scorsese usou a trilha sonora original de Bernard Herrmann para o filme de 1962 (Circulo do Medo). Herrmann foi o compositor favorito de Hitchcock, responsável pelas trilhas memoráveis de Psicose, Intriga Internacional e Um Corpo que Cai. A reorquestração da trilha por Elmer Bernstein imediatamente evoca a atmosfera hitchcockiana clássica.
Os créditos iniciais, desenhados por Saul Bass (que criou os títulos icônicos para vários filmes de Hitchcock, incluindo Psicose e Um Corpo que Cai), são uma homenagem direta ao estilo gráfico e abstrato de Bass.
Além das técnicas subjacentes, Scorsese também presta homenagem direta a elementos visuais específicos de Hitchcock, como o uso de “loiras hitchcockianas” (personagens femininas loiras em vestidos brancos no início de alguns de seus filmes, como em O Lobo de Wall Street) e planos de câmera que recriam momentos icônicos.
Apreciação pela Arte do Cinema: Scorsese é um grande estudioso e preservacionista da história do cinema, e a admiração por Hitchcock é evidente em seus comentários e documentários. Ele considera Um Corpo que Cai (Vertigo) “um dos maiores filmes já feitos” e revisita a obra de Hitchcock constantemente para inspiração e estudo da arte cinematográfica.
Por fim, a influência de Hitchcock em Scorsese é menos sobre copiar o gênero de “suspense” e mais sobre a apropriação e reinterpretação das ferramentas técnicas e narrativas do mestre para explorar a escuridão da psique humana em seu próprio universo cinematográfico de crime, violência e redenção.
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