Análise do filme “Baixio das Bestas” (2006)

Critica de Filmes

Um ambiente de promiscuidade e violência. Mulheres prostituídas sendo espancadas e estupradas, uma adolescente explorada sexualmente pelo avô, agro-boys que se comunicam por meio de palavrões e exibem sua genitália como símbolo de poder.

Tudo isso está no drama “Baixio das Bestas”, filme dirigido pelo cineasta pernambucano Cláudio Assis, que levou o prêmio Tiger Award, do Festival de Cinema de Rotterdam, entre outros em festivais internacionais. Também foi premiado como Melhor Filme pelo Festival de Brasília, melhor atriz com Mariah Teixeira, Melhor Ator Coadjuvante com Irandhir Santos, Melhor Atriz Coadjuvante com Dira Paes e Melhor Trilha Sonora com Pupillo.

O elenco competente de “Baixio das Bestas” também conta com Matheus Nachtergaele, Caio Blat, Marcélia Cartaxo e Hermila Guedes.

Mas, é possível gostar deste filme? Depende. O trabalho do excelente cinegrafista Walter Carvalho compensa o clima pesado. As cenas e tomadas dos canaviais, dos trabalhadores no corte da cana e dos brinquedos de maracatu na Zona da Mata Pernambucana são um verdadeiro oásis dentro da imagética de “Baixio das Bestas”.

O filme mostra um Brasil profundo aonde a lei não chega. Um atropelamento é mostrado e não há boletim de ocorrência, inquérito, polícia ou delegacia. Só alívio em saber que o ciclista atropelado não morreu.

Esse Brasil retratado conversa com o Brasil de “Iracema, Uma Transa Amazônica” (1975), de Jorge Bodansky e Orlando Senna. Em ambos os filmes, a prostituição parece ser a única saída para a mulher. Mas se em “Iracema…”, a jovem é rejeitada por Tião Brasil Grande, em “Baixio das Bestas”, as mulheres são literalmente espancadas. Em ambos os casos ocorre um massacre do feminino.

“Baixio das Bestas” nos remete ao Período Colonial com a monocultura da cana e a escravidão, quando mulheres negras e indígenas eram exploradas sexualmente e objetificadas pelo colonizador português. Será que nada mudou nestas plagas?

Este filme é como um soco no baixo ventre. Avaliemos as palavras do jornalista Júlio Ettore sobre o cantor e compositor cearense Belchior: “Estilo amargo, palavras cortantes. Belchior dizia que a agressão através das letras era parte do estilo dele e algo do qual ele não podia fugir… E tocando na ferida… E até por isso ele vai dizer: Não me peça que eu faça uma canção como se deve. Sons, palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém sem querer ferir ninguém.”

O cinema de Claudio Assis pode ter o mesmo sentido de navalha, de não poder mostrar uma história como convém, sem querer ferir ninguém. No entanto, “Baixio das Bestas” não abre brechas para o lirismo e a poesia, ao contrário da obra musical de Belchior. Traz apenas o sentimento de que nada irá mudar, de desesperança e inexorabilidade.

“Baixio das Bestas” está disponível no streaming pelo Reserva Imovision.

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17 thoughts on “Análise do filme “Baixio das Bestas” (2006)

  1. Ao ver o filme as sensações dos espectadores variam muito. Alguns gostam, outros detestam. Mas a partir dessa análise é possível entender o que o diretor quis transmitir! O Brasil é um país continental. Em áreas onde a lei não chega, a balburdia se estabelece, principalmente em relação à mulher. Parabéns pela excelente análise, motivo esse que deve ensejar que vários amantes do cinema possam assisti-lo e que a partir dessa perspectiva também façam suas reflexões!

  2. Ainda não assisti a esse filme, mas achei muito interessante a sua análise!
    Quando eu for assisti-lo será mais fácil entender a mensagem transmitida pelo diretor. Parabens!

  3. Eu ainda não vi esse filme, mas imagino o que tem nele, porque assisti outros filmes do Cláudio Assis. Ele costuma pesar a mão em relação às cenas sensuais. Fica a impressão de que ele só quer chocar o espectador. Eu só não acho isso, porque já percebi que ele sabe contar muito bem uma história. Na verdade, acredito que o diretor apenas quer nos mostrar como vivem os marginalizados, principalmente os que vivem nas periferias de Recife, o cenário preferido de seus filmes. Pela visão de Assis, os marginalizados vivem em um mundo cercado de violência e libertinagem. O que não está muito distante da nossa realidade.
    Parabéns pela resenha!

  4. Ainda não vi o filme. Gostei de sua crítica, em especial a analogia à música de Belchior.
    O filme tem quase 20 anos.
    Há muitas diferenças entre as diversas regiões do Brasil, mas levando em conta os números de feminicídios que só crescem, conclui-se que infelizmente a mulher continua a ser vista por muitos homens como objeto de sua propriedade.

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