Análise “O Diário de Uma Camareira” (1964)

Critica de Filmes
Análise do filme: O Diário de uma Camareira

Um Estudo Aprofundado da Aristocracia e Suas Obsessões

Essa obra de 1964 marca a última fase da carreira do cineasta espanhol Luis Buñuel (1900-1983), quando passou a trabalhar exclusivamente na França.

Em 1963, Buñuel encontrou o produtor Serge Silberman na Espanha e ambos decidiram adaptar “Le Journal d’une Femme de Chambre”, livro do ano de1900, de Octave Mirbeau, para o cinema.

Buñuel havia lido o livro várias vezes, e Jean Renoir já tinha feito uma adaptação cinematográfica da obra em Hollywood. Buñuel queria filmá-lo no México com a atriz Silvia Pinal, mas Silberman determinou que o filme fosse feito na França.

Em Cannes, o espanhol conheceu o roteirista Jean-Claude Carrière, com quem passaria a trabalhar quase que exclusivamente. Essa foi a primeira colaboração entre os dois. Entre os filmes notáveis, frutos desta parceria, estão:

• O Diário de uma Camareira (1964)
• A Bela da Tarde (1967)
• O Discreto Charme da Burguesia (1972)
• O Fantasma da Liberdade (1974)
• Esse Obscuro Objeto do Desejo (1977)
As obras-primas surrealistas resultantes das criações de Buñuel e Carrière foram sucesso internacional e rendeu a eles o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por “O Discreto Charme da Burguesia”.


Jeanne Moreau

Com a ajuda de Louis Malle, Buñuel encontra e convida Jeanne Moreau para o papel principal. Ela é Célestine, uma camareira parisiense que arruma um trabalho no campo. Também é o primeiro de muitos filmes com o ator francês Michel Piccoli, de quem gostou muito.

Jeanne Moreau é a alma do filme e sua Celéstine causa fascínio nos outros empregados, vizinhos e patrões por vir de Paris. Ela, no entanto, não se rebela com o modo de vida da aristocracia, tenta se adaptar e se submeter a tudo para manter o emprego. É uma personagem prática e calculista.

Ela se torna o objeto de desejo e um fetiche para os homens do local, ao mesmo tempo em que sobrevive as suas investidas. É uma personagem santa, sedutora e erótica.

Buñuel tem um olhar crítico sobre a sociedade patriarcal. Era um conhecido como um diretor com obsessão pelos obcecados.

As personagens femininas também têm suas obsessões. Madame Monteil (Françoise Lugagne), por exemplo, é uma mulher amarga, frígida e com mania de limpeza.

Ela não satisfaz o apetite sexual de Monsieur Monteil (Michel Piccoli). É incapaz de discutir o problema com o marido, mas fala livremente sobre ele com um padre católico que vem à propriedade em busca de doações. Já Monsieur logo corre atrás de Celéstine. Ele também descarrega seu apetite sexual insatisfeito na caça.

O pai de Madame, Monsieur Rabour (Jean Ozenne), tem obsessões fortes. Seu fetichismo é tão intenso que ele pede a Celéstine para chamá-la pelo nome de suas antecessoras.

Celéstine faz o que é necessário para manter sua posição segura. Ele aceita o fetichismo do homem mais velho, atende as ordens da patroa e rejeita os avanços sexuais do patrão. Ao mesmo tempo, deixa-o crer que ela possui um passado sexual permissivo como ele imagina.

Trata-se de um personagem contraditório, em certos aspectos. Ao mesmo tempo em que observa esses seres pervertidos, ela também deseja esse estilo de vida. Resta ao espectador ver até onde ela vai para conseguir isso.

O filme tem uma paleta em tons de cinza, com fotografia impecável e um retrato de época primoroso nos cenários e figurinos.

É o único filme de Buñuel no formato scope. O CinemaScope foi uma tecnologia de
filmagem e projeção que utilizava lentes anamórficas criada pela Twentieth Century Fox em 1953. Foi utilizada entre 1953 e 1967 para a gravação de filmes widescreen, marcando o início do formato moderno tanto para a filmagem quanto para a exibição de filmes.

Em resumo, “O Diário de Uma Camareira” é um filme delicioso com uma atuação maravilhosa de Jeanne Moreau. Há ainda o uso do humor negro para desmascarar um assassino. Mas, por ter uma narrativa linear, foi considerado uma obra menor do realizador espanhol.

É um dos raros filmes de Buñuel sem sequência de sonhos, ao lado de “Os Esquecidos”. Ambos são críticas sociais claras. O surrealismo, outra marca do cineasta espanhol, não é explícito desta vez, mas surge nos temas da obsessão e fetichismo sem precedentes.

Em “O Diário de Uma Camareira”, Buñuel exibe sua habitual ironia ao retratar os aristocratas e suas manias com doses iguais de humor e drama, mas em tom sarcástico, como só ele sabia fazer.




Loading

Compartilhe nosso artigo

12 thoughts on “Análise “O Diário de Uma Camareira” (1964)

  1. Parabéns pela escrita que trouxe muito conhecimento. Vou assistir este filme e os outros também relatados aqui. Adoro suas colocações além de me incentivar a ver determinados filmes com mais conhecimento tô, me dá um norte para me desenvolver
    Gratidão

  2. Parabéns pela escrita que trouxe muito conhecimento. Vou assistir este filme e os outros também relatados aqui. Adoro suas colocações além de me incentivar a ver determinados filmes com mais conhecimento tô, me dá um norte para me desenvolver

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *