Marcelo Kricheldorf
O cinema, desde a sua maturação como linguagem artística no século XX, estabeleceu um diálogo intrínseco com o existencialismo. Mais do que um gênero, o cinema existencialista é uma postura diante da câmera que busca traduzir visualmente o preceito de Jean-Paul Sartre:* “a existência precede a essência”. Neste cenário, a tela deixa de ser apenas um espaço de entretenimento para se tornar um laboratório da condição humana, onde a liberdade, o absurdo e a responsabilidade individual são postos à prova sob o olhar do espectador.
O tema central destas obras é a jornada do indivíduo em um mundo desprovido de um plano divino ou de uma ordem natural preestabelecida. Diferente do cinema clássico, onde o herói segue um destino, o cinema existencialista foca na liberdade e na escolha. Personagens em filmes de diretores como Ingmar Bergman ou Michelangelo Antonioni são frequentemente colocados em encruzilhadas morais onde não há guias externos. A liberdade é retratada como uma “condenação”: o indivíduo é livre para agir, mas essa liberdade gera uma angústia profunda, pois cada escolha é um ato de autocriação que define quem ele é.
A relação entre o homem e o universo no cinema existencialista é marcada pela absurdidade e pela falta de sentido. Influenciados pelo pensamento de Albert Camus*, cineastas exploram o silêncio do mundo diante do desejo humano de ordem. Essa falta de propósito intrínseco mergulha o personagem no individualismo e na solidão. A solidão existencialista não é apenas a ausência de pessoas, mas a percepção de que somos radicalmente sós em nossas decisões. No cinema de Antonioni, por exemplo, a arquitetura moderna muitas vezes engole os personagens, simbolizando a sua alienação e a incomunicabilidade que define a existência urbana contemporânea.
Ao rejeitar o determinismo, o cinema existencialista coloca o peso da responsabilidade e da culpa inteiramente nos ombros do personagem. Não há “destino” ou “sociedade” que sirva de desculpa para o fracasso moral. Paradoxalmente, essa mesma lente serve como uma poderosa crítica à sociedade. Ao enfatizar o indivíduo autêntico, o cinema expõe a inautenticidade das massas e as estruturas sociais que tentam reduzir o ser humano a uma engrenagem burocrática ou a um papel social rígido. O cinema torna-se, assim, um ato de resistência contra o conformismo.
O papel do personagem é transformado: ele não é um arquétipo, mas um “ser-em-projeto”. Sua identidade é fluida e construída em tempo real. Essa fluidez influencia a narrativa cinematográfica, que muitas vezes abandona a estrutura linear de causa e efeito em favor de um tempo psicológico, mais lento e reflexivo. Central a essa jornada está a relação com a morte. No cinema existencialista, a finitude não é um evento trágico final, mas o horizonte que dá urgência à vida. A consciência da morte é o que impele o personagem a buscar uma vida autêntica, como visto no emblemático jogo de xadrez em O Sétimo Selo.
O legado do existencialismo permanece vibrante no cinema contemporâneo. Das crises de identidade em dramas intimistas às distopias que questionam o que significa ser humano em um mundo tecnológico, a filosofia existencialista continua a fornecer as ferramentas para questionar nossa presença no mundo. O cinema contemporâneo herdou essa coragem de olhar para o vazio sem desviar os olhos, reafirmando que, mesmo em um universo sem sentido aparente, o ato de escolher e de criar significado é o que nos torna verdadeiramente humanos.
Informações Adicionais
Jean-Paul Sartre (1905–1980) foi um filósofo, escritor e crítico francês, amplamente reconhecido como a figura central do existencialismo no século XX. Sua obra defende a liberdade radical e a responsabilidade individual como pilares da experiência humana.
Albert Camus foi um proeminente jornalista, filósofo e escritor franco-argelino, nascido em 1913. Ele é uma figura central do pensamento do absurdo e um dos autores mais importantes do século XX, tendo recebido o Prêmio Nobel de Literatura em 1957, aos 44 anos de idade.
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