Análise do Filme: A História Oficial (1986)

Critica de Filmes

As Sombras do Passado: Verdade e Memória.

Marcelo Kricheldorf

O cinema argentino pós-ditadura encontrou em “A História Oficial” (1985), dirigido por Luis Puenzo, sua voz mais contundente e universal. Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, a obra não é apenas um registro histórico, mas uma anatomia da cumplicidade civil e do despertar ético. Através do drama íntimo de uma família de classe média alta, Puenzo explora as feridas abertas pela ditadura militar (1976-1983), confrontando a “história oficial” dos livros com a memória viva e dolorosa dos desaparecidos.
A narrativa orbita Alicia, uma professora de História que vive em uma bolha de privilégios. Seu marido, Roberto, é um empresário com conexões obscuras com o regime militar. A estabilidade da família repousa sobre a pequena Gaby, a filha adotiva cuja origem é cercada de silêncios. O filme utiliza Alicia como metáfora para a hipocrisia burguesa: ela ensina a história nacional como um conjunto de fatos imutáveis, enquanto ignora a barbárie que ocorre em sua própria porta. O conflito irrompe quando Alicia começa a suspeitar que Gaby é filha de uma prisioneira política assassinada, forçando-a a escolher entre a segurança da ignorância e o custo devastador da verdade.
A exploração da violência e da tortura no filme é realizada de forma psicológica e testemunhal. O retorno de Ana, uma amiga de Alicia que sofreu exílio e tortura, atua como o catalisador do horror. O relato de Ana sobre os abusos nos centros de detenção rompe a barreira da negação de Alicia. A partir daí, o filme mergulha na luta contra a impunidade. Puenzo destaca a importância da investigação e da denúncia, personificada nas Madres de Plaza de Mayo, que representam a resistência ética contra o apagamento sistemático de uma geração. A busca de Alicia pela identidade de Gaby torna-se, portanto, um ato de resistência contra o esquecimento.
A obra oferece uma poderosa representação da experiência feminina. Alicia transita de uma figura submissa ao “status quo” patriarcal e estatal para uma mulher com agência própria. Ao investigar a origem da filha, ela desafia a autoridade de Roberto, que simboliza a face agressiva e corrupta do regime. O filme argumenta que a responsabilidade individual não pode ser delegada; ao descobrir a verdade, Alicia compreende que a neutralidade diante da injustiça é, em si, uma forma de colaboração. A jornada de Alicia é a jornada da própria Argentina em direção à rediscussão de sua identidade.
A estética de Puenzo reforça o clima de opressão e descoberta. A câmera foca persistentemente em closes de Alicia, capturando cada rachadura em sua máscara de segurança. A iluminação evolui: as cenas iniciais em tons quentes e burgueses dão lugar a ambientes frios e sombras marcadas, refletindo a desolação da verdade. A técnica de narração é magistral ao manter o espectador no mesmo nível de conhecimento da protagonista, transformando a audiência em cúmplice de sua investigação.
“A História Oficial” encerra-se não com uma solução reconfortante, mas com um confronto necessário. O filme estabelece que a justiça e a memória são pilares inegociáveis para a reconstrução de uma sociedade após o trauma.A lição de Puenzo é clara: um povo que não conhece sua história real está condenado a repetir seus capítulos mais sombrios.

Ficha Técnica de “A História Oficial” (1986)

  • Título original: La historia oficial
  • Direção: Luís Puenzo
  • Roteiristas: Luís Puenzo e Aída Bortnik
  • Elenco principal:
  • Norma Aleandro como Alicia Marnet de Ibáñez
  • Héctor Alterio como Roberto Ibáñez
  • Chunchuna Villafañe como Ana
  • Hugo Arana como Enrique
  • Gênero: Drama
  • Duração: 1 hora e 52 minutos (112 minutos)
  • País de origem: Argentina
  • Idioma: Espanhol

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