A Infância sob o Espectro da Repressão
⭐⭐⭐⭐⭐
Marcelo Kricheldorf
O cinema de Carlos Saura sempre se destacou pela capacidade de utilizar metáforas sutis para driblar a censura e criticar o autoritarismo. Em Cría Cuervos, lançado no ano da transição democrática espanhola, essa habilidade atinge seu ápice. Através da perspectiva de Ana, uma criança de nove anos, o filme desconstrói o mito da infância como um “paraíso de inocência”, revelando-a como um estágio de formação de identidade marcado pelo trauma, pela observação da morte e pela resistência silenciosa contra o patriarcado.
A narrativa de Saura subverte a linearidade temporal para mimetizar o funcionamento da mente humana. O filme flutua entre o presente da infância de Ana e o futuro, onde ela aparece como adulta (interpretada por Geraldine Chaplin). Essa técnica reforça que a personalidade não é um dado estático, mas uma construção contínua fundamentada na memória. Para a pequena Ana, o passado não está morto; ele coexiste com o presente através de visões de sua falecida mãe. Essa fusão entre o real e o imaginário demonstra que, na infância, a fantasia é uma ferramenta de sobrevivência emocional: ao “invocar” a mãe ou acreditar que possui um pó mortal capaz de eliminar seus opressores, Ana exerce uma autonomia que o mundo adulto lhe nega.
A morte é o motor central da trama. O filme inicia com o falecimento do pai de Ana, um militar de alto escalão cuja figura simboliza a própria ditadura franquista — rígida, infiel e autoritária. A reação de Ana à sua morte não é de luto, mas de uma perturbadora indiferença, sugerindo que a autoridade paterna era uma fonte de repressão, não de afeto. A busca de Ana pela liberdade manifesta-se em pequenos atos de rebeldia, como a obsessão pela canção “Porque te vas”, que serve como um hino de melancolia e resistência contra o ambiente claustrofóbico da casa onde vive, agora sob a vigilância da tia Paulina, que herda o papel de censora moral do regime.
Visualmente, Saura utiliza a casa aristocrática como um microcosmo da Espanha decadente. A iluminação oscila entre sombras densas e uma claridade fria, acentuando a sensação de isolamento. A técnica de narração foca intensamente no olhar de Ana Torrent; seus olhos grandes e expressivos funcionam como a “câmera” da alma, capturando as hipocrisias dos adultos sem proferir uma palavra. A câmera frequentemente se posiciona na altura da criança, forçando o espectador a ver o mundo de baixo para cima, onde os adultos parecem figuras imponentes, mas emocionalmente vazias.
Em última análise, Cría Cuervos é um estudo sobre a formação da resistência. Ao explorar a relação traumática entre a mãe (vítima do machismo e da doença) e as filhas, o filme denuncia a estrutura opressiva da sociedade espanhola. A frase que dá título à obra — “Cria corvos e eles te arrancarão os olhos” — sugere que a nova geração, moldada pela repressão, eventualmente se voltará contra seus criadores. Carlos Saura não apenas documentou o fim de uma era política, mas imortalizou a complexidade do amadurecimento em um mundo onde a liberdade só pode ser alcançada através da memória e da imaginação.
Ficha Técnica de “Cria Cuervos” (1976)
- Título original: Cría cuervos
- Direção: Carlos Saura
- Roteiristas: Carlos Saura e Rafael Azcona
- Elenco principal:
- Ana Torrent como Ana
- Geraldine Chaplin como a mãe (María)
- Monique Carrillo como Irene
- Héctor Alterio como Anselmo
- Gênero: Drama psicológico
- Duração: 1 hora e 47 minutos (107 minutos)
- País de origem: Espanha
- Idioma: Espanhol
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