Marcelo Kricheldorf
O filme “Intriga Internacional” (1959), dirigido pelo lendário Alfred Hitchcock, permanece como uma das obras mais influentes da história do cinema, consolidando-se como o protótipo do thriller de ação e espionagem moderno. Através de uma narrativa frenética e visualmente deslumbrante, Hitchcock não apenas entretém, mas explora as complexidades da identidade e da paranoia em um mundo onde as aparências raramente correspondem à realidade.
A narrativa gira em torno de Roger Thornhill (Cary Grant), um publicitário de Nova York cuja vida é pautada pela agilidade verbal e pelo cinismo urbano. O conflito se inicia quando ele é confundido com George Kaplan, um agente secreto inexistente criado pela inteligência americana para desviar a atenção de um espião real. Sequestrado pelo vilão Phillip Vandamm (James Mason) e forçado a situações letais, Thornhill se vê preso no tropo hitchcockiano do “homem errado”: um cidadão comum jogado em uma rede de conspirações que ele não compreende e da qual não pode escapar legalmente.
A temática da identidade é o cerne psicológico do filme. Thornhill, inicialmente um homem superficial e narcisista, é forçado a abandonar sua persona confortável para assumir o papel de Kaplan. Esse jogo de espelhos questiona a estabilidade do “eu”: em um mundo de espionagem, a identidade é uma construção maleável. A “dupla vida” aqui não é uma escolha do protagonista, mas uma imposição do destino, transformando um publicitário que vende ilusões em um homem que deve viver uma ilusão para sobreviver.
Hitchcock eleva a perseguição a um nível artístico. A fuga de Thornhill atravessa os Estados Unidos, culminando em sequências que se tornaram gramática visual para o cinema. A cena do ataque do avião pulverizador no deserto é um golpe de mestre: subvertendo o clichê do perigo em becos escuros, o diretor coloca o protagonista sob o sol escaldante, em um espaço aberto onde não há onde se esconder. O clímax no Monte Rushmore utiliza o simbolismo dos monumentos nacionais para acentuar a pequenez humana diante das forças políticas e históricas.
Embora o filme evite discussões ideológicas profundas, ele captura perfeitamente o Zeitgeist da Guerra Fria. A política é apresentada como um jogo de xadrez frio, onde indivíduos são sacrificáveis. A organização de Vandamm e a indiferença dos oficiais da inteligência americana (que permitem que Thornhill corra perigo para proteger seu plano) refletem uma desconfiança profunda nas instituições, característica da paranoia política dos anos 50.
A colaboração entre Hitchcock e o roteirista Ernest Lehman resultou em um roteiro que equilibra suspense, comédia sofisticada e romance. Lehman queria escrever “o filme de Hitchcock definitivo”, e conseguiu ao misturar diálogos afiados com situações absurdas. A direção de Hitchcock é meticulosa, utilizando o MacGuffin (os segredos de estado dentro de uma estatueta) apenas como pretexto para explorar a tensão cinematográfica pura e o dinamismo visual.
O título original, “North by Northwest”, é uma bússola inexistente, simbolizando que Thornhill perdeu seu norte moral e geográfico. O filme é repleto de simbolismo fálico e metáforas sobre o desejo, especialmente na relação entre Thornhill e a femme fatale Eve Kendall (Eva Marie Saint). A cena final, com o trem entrando em um túnel, é uma das metáforas sexuais mais famosas e audaciosas da história do cinema sob o Código Hays.
Por fim, o filme não teria o mesmo impacto sem a presença de Cary Grant. Sua atuação é uma lição de carisma e tempo cômico. Grant humaniza Thornhill, transformando-o de um homem arrogante em um herói relutante, mas capaz. Ele personifica a sofisticação sob pressão, tornando crível que um publicitário de terno cinza consiga escalar monumentos e enganar espiões internacionais.
Em suma, “Intriga Internacional” é mais do que um filme de suspense; é uma celebração do cinema como espetáculo e uma reflexão sobre a fragilidade da vida comum diante das engrenagens invisíveis do poder. Hitchcock criou uma obra atemporal que continua a ditar o ritmo de como histórias de espionagem são contadas até hoje.
Ficha Técnica de “Intriga Internacional” (1959)
- Título original: North by Northwest
- Direção: Alfred Hitchcock
- Roteiristas: Ernest Lehman
- Elenco principal:
- Cary Grant como Roger Thornhill
- Eva Marie Saint como Eve Kendall
- James Mason como Phillip Vandamm
- Jessie Royce Landis como Clara Thornhill
- Leo G. Carroll como o Professor
- Gênero: Suspense, Aventura
- Duração: 1h 56min (136 minutos)
- País de origem: Estados Unidos
- Idioma: Inglês
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Que filme maravilhoso! Realmente, tem perseguição em campo aberto e em lugar fechado, para a gente perder o fôlego, tem “todo o mundo buscando sabe-se lá o que”, tem comédia, tem a descoberta do quarto de hotel, tem Cary Grant escalando parede de sapato social…..Tem a frase “tenho um trabalho, uma secretária, uma mãe, duas ex-mulheres e um monte de bares que dependem de mim” rsrsrsrs. Fiquei surpresa esses dias ao saber que Eva Marie Saint está viva com mais de cem anos. E de alguma maneira eu conecto o George Kaplan de Intriga Internacional com a história de espionagem de O Homem que Nunca Existiu, de 1956.