O Crepúsculo do Dragão
Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1987, “O Último Imperador”, dirigido pelo mestre italiano Bernardo Bertolucci, não é apenas uma biografia cinematográfica, mas um estudo profundo sobre a solidão do poder e a inexorabilidade da história. Através da trajetória de Aisin-Gioro Pu Yi, o filme traça o perfil de um homem que foi, simultaneamente, um deus e um prisioneiro, refletindo as transformações radicais que moldaram a China moderna no século XX.
A estrutura narrativa do filme é construída sobre um contraste magistral. Por meio de flashbacks, Bertolucci alterna entre a opulência amarelada da Cidade Proibida — onde Pu Yi é coroado imperador aos três anos de idade — e os tons cinzentos e frios de uma prisão de reeducação comunista em 1950. Essa montagem não linear enfatiza a queda de um ícone: o menino que era adorado por bilhões termina seus dias como um cidadão comum, limpando celas e cuidando de jardins. A vida de Pu Yi é apresentada como uma sucessão de prisões, sejam elas de ouro, de ideologia ou de grades reais.
O filme serve como um documento histórico sobre a transição da China Imperial para a República Popular. Pu Yi é o espectador passivo de eventos monumentais: a queda da Dinastia Qing, a influência da cultura ocidental (personificada por seu tutor escocês, Reginald Johnston), a invasão japonesa na Manchúria e a ascensão definitiva de Mao Tsé-Tung. A obra ilustra como Pu Yi foi manipulado como um “imperador fantoche” pelos japoneses no estado de Manchukuo, evidenciando que sua identidade sempre foi moldada por forças externas e interesses geopolíticos.
Um dos pontos centrais é a busca de Pu Yi por uma identidade própria. Criado em um vácuo social, ele desconhece a realidade do seu povo. Sua relação com o pai biológico, o Príncipe Chun, é marcada pela distância e pelo protocolo; o pai é uma figura que o entrega a um destino que o menino não escolheu. A opressão no filme é sutil: Pu Yi goza de um poder absoluto dentro dos muros de seu palácio, mas é proibido de cruzar o portão. Ele é o único homem na China que não pode sair de casa. Sua liberdade só começa a ser gestada quando ele é forçado a confrontar sua própria obsolescência.
A estética de Bertolucci, auxiliada pela fotografia de Vittorio Storaro, é um dos pilares da obra. O uso das cores é simbólico: o amarelo representa a infância e o isolamento imperial; o vermelho transita do calor das núpcias para o sangue da revolução; e o verde surge como a cor da vida comum e do aprendizado final. Filmado nos locais reais da Cidade Proibida, o filme alcança uma autenticidade visual inigualável.
Bernardo Bertolucci foi o primeiro cineasta ocidental a receber autorização do governo chinês para filmar um longa-metragem de ficção dentro da Cidade Proibida, em Pequim.
Até então, o palácio imperial era considerado um local sagrado e politicamente restrito, nunca antes aberto para uma produção cinematográfica estrangeira.
A trilha sonora de Ryuichi Sakamoto e David Byrne funde sonoridades orientais e ocidentais, ecoando o conflito interno de um imperador que desejava o progresso (bicicletas, óculos, jazz), mas estava acorrentado ao passado.
A representação do regime comunista no filme é ambivalente. Se, por um lado, o processo de reeducação é mostrado como uma forma de quebrar a espinha dorsal da individualidade, por outro, Bertolucci sugere que essa foi a única maneira de Pu Yi “nascer” como um ser humano consciente. A crítica reside na desumanização do indivíduo em prol do coletivo, mas o desfecho oferece uma redenção poética. Ao final da vida, Pu Yi não é mais um símbolo político, mas um homem que encontra paz na simplicidade.
“O Último Imperador” é uma obra sobre a perda da inocência e o peso da história. O legado de Pu Yi, conforme retratado por Bertolucci, é a compreensão de que a verdadeira dignidade não reside em títulos ou tronos, mas na liberdade de ser um homem entre homens. O filme permanece como uma das maiores conquistas do cinema, essencial para quem busca entender a alma da China e as contradições da condição humana diante do tempo.
Ficha Técnica de “O Último Imperador” (1987)
- Título original: The Last Emperor
- Direção: Bernardo Bertolucci
- Roteiristas: Bernardo Bertolucci, Mark Peploe
- Elenco principal:
- John Lone como Pu Yi
- Joan Chen como Wanrong
- Peter O’Toole como Reginald Johnston
- Ying Ruocheng como o governador
- Gênero: Biografia, Drama, História
- Duração: 3 horas e 43 minutos (163 minutos)
- País de origem: Itália/China/Reino Unido
- Idioma: Inglês, Mandarim, Japonês
Ganhou 9 Oscars conquistados incluem:
- Melhor Filme
- Melhor Diretor (Bernardo Bertolucci)
- Melhor Roteiro Adaptado
- Melhor Fotografia
- Melhor Direção de Arte
- Melhor Figurino
- Melhor Montagem
- Melhor Som
- Melhor Trilha Sonora Original
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