Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1973 sob a direção precisa de George Roy Hill, Golpe de Mestre não é apenas um filme sobre vigaristas; é uma celebração da inteligência sobre a força bruta. Ambientado no crepúsculo da Grande Depressão, o longa-metragem transcendeu sua época para se tornar o arquétipo do filme de “golpe perfeito”, unindo uma estética nostálgica a um roteiro de precisão matemática que mantém o espectador em constante estado de dúvida e fascínio.
A trama inicia-se com Johnny Hooker (Robert Redford), um jovem trapaceiro de rua que, ao aplicar um golpe bem-sucedido, acaba roubando o homem errado: um capanga de Doyle Lonnegan (Robert Shaw), um implacável barão do crime. Após o assassinato de seu mentor como represália, Hooker busca a tutela de Henry Gondorff (Paul Newman), um mestre dos grandes golpes que vive no ostracismo.
A narrativa é estruturada de forma episódica, utilizando cartões de título ilustrados que mimetizam o estilo das revistas da década de 1930. Essa escolha não é meramente estética; ela organiza o “grande golpe” em etapas lógicas — o set-up, o conto, a marca —, permitindo que o público acompanhe a logística complexa de criar um cassino falso e uma agência de apostas inexistente para seduzir a ganância de Lonnegan.
A “Arte do Golpe” em The Sting reside no teatro. Os protagonistas não utilizam armas, mas sim figurinos, cenários e roteiros. O contexto da Depressão Americana de 1936 serve como o pano de fundo ideal: um mundo de desemprego e instituições falidas onde a malandragem era, para muitos, uma ferramenta de sobrevivência. O filme captura a atmosfera das ruas, dos trens e dos clubes esfumaçados, conferindo uma autenticidade que ancora a trama fantasiosa da trapaça.
Embora o tema central seja a vingança contra Lonnegan, o subtexto mais rico é a relação entre Gondorff e Hooker. Existe uma transferência de conhecimento geracional onde a lealdade é o único código de conduta em um mundo de mentiras. Diferente de vilões movidos por crueldade, os protagonistas buscam uma forma de “justiça poética”: eles não desejam apenas o dinheiro de Lonnegan, mas querem humilhá-lo através de sua própria arrogância e cupidez.
A química entre Paul Newman e Robert Redford, já testada em Butch Cassidy, atinge seu ápice aqui. Newman empresta a Gondorff um cansaço carismático, enquanto Redford personifica a vulnerabilidade e a audácia da juventude. A direção de George Roy Hill é magistral ao equilibrar o suspense com a leveza. Ele opta por uma técnica cinematográfica anacrônica para a década de 70, como o uso de transições em “íris”, que reforça a sensação de estarmos assistindo a uma crônica clássica.
Inseparável da direção está a trilha sonora de Scott Joplin, adaptada por Marvin Hamlisch. O ragtime “The Entertainer” tornou-se o hino do filme, conferindo um ritmo saltitante que contrasta com o perigo iminente, estabelecendo o tom de “jogo” que permeia toda a obra.
Vencedor de sete prêmios Oscar, incluindo Melhor Filme, Golpe de Mestre estabeleceu a gramática visual e narrativa para obras contemporâneas como Onze Homens e um Segredo e Baby Driver. Sua influência reside na descoberta de que o público adora ser enganado, desde que o truque seja executado com estilo e inteligência.
Em suma, Golpe de Mestre permanece imortal porque compreende uma verdade fundamental do entretenimento: a trapaça mais prazerosa é aquela que nos faz sorrir quando finalmente descobrimos como fomos enganados.
Ficha Técnica de “Golpe de Mestre” (1973)
- Título original: The Sting
- Direção: George Roy Hill
- Roteiristas: David S. Ward
- Elenco principal:
- Paul Newman como Henry Gondorf
- Robert Redford como Johnny Hooker
- Robert Shaw como Doyle Lonnegan
- Charles Durning como Lieutenant Snyder
- Ray Walston como J.J. Singleton
- Gênero: Comédia, Crime, Drama
- Duração: 1h 49min (109 minutos)
- País de origem: Estados Unidos
- Idioma: Inglês
- Prêmios:
- 7 Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor
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