Marcelo Kricheldorf
O início da década de 1970 foi um período de transformação radical no cinema norte-americano, marcado pela desilusão política e pela quebra de tabus estéticos. Dentro deste cenário de “Nova Hollywood”, surge “Os Implacáveis” (The Getaway), obra dirigida por Sam Peckinpah e baseada no romance de Jim Thompson. O filme não é apenas um suspense de ação; é um estudo visceral sobre traição, sobrevivência e a corrosão moral da sociedade americana, orquestrado pelo mestre da violência cinematográfica.
A trama se inicia com a asfixia psicológica de Doc McCoy (Steve McQueen), um criminoso profissional preso em uma penitenciária do Texas. Para obter a liberdade, ele instrui sua esposa, Carol (Ali MacGraw), a “fazer o que for necessário” junto ao influente Jack Benyon, um político corrupto. O preço da soltura é o planejamento e execução de um assalto a banco.
O que se segue é uma narrativa de fuga clássica, mas subvertida. O assalto dá errado, resultando em mortes e traições cruzadas que forçam o casal a atravessar o Texas em direção à fronteira com o México. A estrutura do filme é de uma perseguição implacável, onde o perigo não vem apenas da polícia, mas também de cúmplices traidores e do próprio sistema que os cerca.
Sam Peckinpah, apelidado de “Bloody Sam”, utiliza a violência em Os Implacáveis de forma menos operística do que em Meu Ódio Será Tua Herança (1969), mas com a mesma precisão técnica. A montagem é rápida, fragmentada e intercalada com a câmera lenta característica do diretor, que “estica” os momentos de impacto.
Aqui, a violência é seca e desprovida de glamour. Ela serve como um lembrete constante da fragilidade humana e da brutalidade necessária para sobreviver em um mundo hostil. Peckinpah transforma objetos cotidianos — como uma escavadeira em um lixão ou uma espingarda calibre 12 — em extensões da vontade de seus protagonistas.
O centro emocional do filme é a relação entre Doc e Carol. Diferente dos casais criminosos românticos como Bonnie e Clyde, os McCoy vivem em um estado de tensão constante. A revelação de que Carol se deitou com Benyon para libertar Doc cria uma ferida aberta que sangra durante toda a perseguição.
A química entre Steve McQueen e Ali MacGraw é palpável, intensificada pelo romance real que os atores viviam na época. McQueen entrega uma performance de estoicismo brutal, enquanto MacGraw oferece uma vulnerabilidade resiliente. A jornada para o México torna-se, portanto, uma metáfora para a tentativa de purificação de um relacionamento nascido no crime e na humilhação.
“Os Implacáveis” é um filme profundamente pessimista sobre as instituições americanas. Não há distinção clara entre a lei e o crime: políticos são articuladores de roubos, e a polícia é frequentemente retratada como uma força burocrática e ineficaz. O filme reflete o ceticismo da era Watergate e as cicatrizes da Guerra do Vietnã, onde a confiança na autoridade havia desmoronado.
A “sociedade” em Peckinpah é povoada por oportunistas. O destino final — o México — representa não apenas a liberdade física, mas o único refúgio possível longe de um sistema capitalista e político que devora o indivíduo.
“Os Implacáveis” permanece como uma obra fundamental por sua capacidade de equilibrar o entretenimento de alta voltagem com uma análise psicológica densa. Sam Peckinpah não apenas entregou um filme de ação impecável, mas um retrato sombrio de dois amantes tentando escapar de suas próprias falhas e de um mundo que não oferece redenção fácil. É, acima de tudo, um testamento do carisma inigualável de Steve McQueen e da visão intransigente de um dos diretores mais autorais da história do cinema
Ficha Técnica de “Os Implacáveis” (1972)
- Título original: The Getaway
- Direção: Sam Peckinpah
- Roteiristas: Walter Hill (baseado no romance de Jim Thompson)
- Elenco principal:
- Steve McQueen como Doc McCoy
- Ali MacGraw como Carol McCoy
- Ben Johnson como Jack Beynon
- Al Lettieri como Rudy Butler
- Sally Struthers como Fran Clinton
- Gênero: Ação, Crime, Thriller
- Duração: 1h 58min (118 minutos)
- País de origem: Estados Unidos
- Idioma: Inglês
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