Uma Crônica Detalhada da Revolução Fílmica e Intelectual
Marcelo Kricheldorf
Jean-Luc Godard (1930–2022) não foi apenas um diretor, mas um iconoclasta que utilizou a câmera como caneta para reescrever as regras do cinema. Figura fundamental da Nouvelle Vague, sua obra vasta e profunda é um campo de batalha estético e ideológico, onde a forma e o conteúdo estão em constante e radical diálogo. Este artigo detalha as principais facetas de sua contribuição, desde a influência do movimento que ajudou a criar até a sua exploração rigorosa da linguagem, política e arte.
Godard, junto a Truffaut, Rivette e Rohmer, emergiu das páginas da influente revista Cahiers du Cinéma, onde defendiam a “política dos autores” – a ideia de que o diretor é o verdadeiro autor do filme, imbuindo a obra com uma visão pessoal e estilística. Acossado (À bout de souffle, 1960), seu primeiro longa, foi o manifesto da Nouvelle Vague em movimento.
Godard desafiou a continuidade narrativa de Hollywood com o uso agora icônico de jump cuts (cortes secos e bruscos) que quebravam a ilusão de fluidez temporal, expondo a artificialidade do cinema e forçando o espectador a um engajamento ativo.
A utilização de câmeras portáteis, luz natural e diálogos frequentemente improvisados trouxe uma urgência e um realismo cru às suas narrativas, contrastando fortemente com o cinema de estúdio predominante na época.
A obra de Godard é indissociável da convulsão política do século XX. Inicialmente como pano de fundo, e posteriormente como tema central, a política permeia seus filmes.
Filmes como Duas ou Três Coisas que Eu Sei Dela (2 ou 3 choses que je sais d’elle, 1967) dissecam a alienação e a mercantilização da vida moderna, onde até os corpos se tornam commodities.
Após os eventos de Maio de 1968 na França, Godard radicalizou-se, formando o coletivo maoísta Grupo Dziga Vertov. Neste período, os filmes tornaram-se ensaios fílmicos didáticos e experimentais, focados na luta de classes e na crítica à ideologia burguesa do cinema comercial.
Os filmes de Godard são palcos para o pensamento filosófico. Diálogos densos e referências a pensadores como Sartre, Marx e Mao Tsé-Tung são elementos constantes.
A busca por sentido, a liberdade e a responsabilidade individual são temas explorados em filmes como Viver a Vida (Vivre sa vie, 1962), que acompanha a jornada de uma jovem que escolhe a prostituição em busca de uma forma de liberdade existencial.
Godard integrou a pintura (Picasso, Klee), a literatura (Kafka, Brecht) e a música em uma estética de colagem, utilizando o cinema como uma forma de reflexão sobre a própria natureza da arte e da representação.
A parceria com a atriz dinamarquesa Anna Karina, sua esposa e musa nos anos 60, gerou uma das colaborações mais férteis da história do cinema. Karina encarnou a melancolia, a rebeldia e a graça dos personagens femininos de Godard.
Filmes como Banda à Parte (Bande à part, 1964), com sua famosa cena de dança, e Pierrot le Fou (O Demônio das Onze Horas, 1965), uma road movie poética e desesperada, solidificaram a imagem de Karina como o rosto da Nouvelle Vague. A química entre diretor e atriz é palpável, adicionando uma camada de intimidade e tragédia pessoal às suas obras.
A obsessão de Godard com a linguagem e a comunicação é talvez seu legado mais duradouro. Ele questionou fundamentalmente como a mídia molda nossa percepção da realidade.
A forma como os filmes são estruturados – com intertítulos, narrações em off, quebras da quarta parede e a justaposição de textos e imagens – expõe o mecanismo da linguagem cinematográfica.
Godard explorou a falha na comunicação, a distância entre a palavra e a imagem, sugerindo que a linguagem, muitas vezes, obscurece a verdade em vez de revelá-la.
A influência de Godard transcende fronteiras. Ele não apenas revolucionou o cinema francês, mas impactou cineastas em todo o mundo, desde Martin Scorsese e Quentin Tarantino (que nomeou sua produtora “A Band Apart” em homenagem a Godard) até o cinema independente contemporâneo.
Godard jamais se acomodou, continuando a experimentar com vídeo digital, 3D e novas formas de narrativa até o fim de sua vida.
Sua maior contribuição foi a de transformar o cinema em uma ferramenta de questionamento incessante – uma arte que se interroga constantemente sobre seu próprio papel no mundo, deixando um legado de ousadia intelectual e criativa inigualável.
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Ótimo análise. Sempre bem escrita
Um dos grandes cineastas franceses ,Goddard despertou a revolta do Vaticano e de vários artistas quando fez o polêmico Je Vous Salue Marie. Muitos cinemas evitaram exibir o filme com medo de represálias da igreja e parte da população moralista q taxou o filme como herege