Análise do Filme:”Stalker (1979)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1979, o filme “Stalker”, de Andrei Tarkovsky, permanece como um dos monumentos mais imponentes do cinema mundial. Longe de ser uma ficção científica convencional baseada em efeitos visuais, a obra é uma exploração metafísica da alma humana. Ao adaptar o romance Piquenique na Estrada, dos irmãos Strugatsky, Tarkovsky despiu a narrativa de seus elementos tecnológicos para focar no que ele chamava de “escultura do tempo” e na busca incessante pelo sagrado.
A trama acompanha três homens sem nomes próprios — o Stalker (o guia), o Escritor e o Cientista — em uma jornada proibida para o coração da “Zona”, um território misterioso onde as leis da física são fluidas e onde se diz existir um “Quarto” capaz de realizar os desejos mais profundos de quem nele adentra.
A narrativa é dividida visualmente: o mundo exterior é filmado em um sépia opressivo e industrial, representando a desolação de uma realidade sem cor e sem fé. Ao cruzarem a fronteira para a Zona, o filme ganha cores, sugerindo que a verdadeira vida — e o verdadeiro perigo — reside no mistério e no intangível, não na segurança da razão técnica.
A relação entre os personagens funciona como um debate filosófico vivo. O Cientista representa o materialismo e o desejo de controlar a realidade através da lógica; o Escritor encarna o cinismo moderno e a crise da inspiração, buscando na Zona um sentido que sua arte já não provê. No centro está o Stalker, uma figura quase messiânica, marcada pela pobreza e pela marginalidade.
Para o Stalker, a Zona é um templo. Ele não busca nada para si; sua missão é conduzir os “desgraçados” que perderam a esperança. A tensão entre os três revela a incapacidade do homem moderno de lidar com o milagroso: enquanto o Cientista quer medir a Zona e o Escritor quer consumi-la, o Stalker é o único que se ajoelha diante dela.
Tarkovsky utiliza o cenário de desintegração industrial para tecer uma crítica contundente à modernidade. A Zona é repleta de escombros, tanques abandonados e água estagnada — símbolos de uma civilização que se autoexplodiu. Paradoxalmente, a natureza retoma esses espaços com uma vitalidade agressiva. O simbolismo da água é onipresente: ora como purificação, ora como um espelho que reflete a estagnação espiritual dos viajantes. A Zona não é um lugar físico, mas um estado de consciência; ela “lê” o coração de quem a pisa, tornando-se uma metáfora para o encontro do homem com sua própria verdade.
A estética de Tarkovsky em “Stalker” é definida por tomadas longas e movimentos de câmera hipnóticos. Ao recusar o corte rápido do cinema comercial, o diretor obriga o espectador a entrar no tempo da contemplação. Cada plano é uma meditação sobre a matéria e o espírito. A influência da filosofia existencialista e da mística ortodoxa russa é evidente: a fraqueza é vista como força e a submissão ao mistério como o único caminho para a salvação.
O clímax do filme não ocorre em uma explosão de efeitos, mas no silêncio diante da porta do Quarto. A revelação de que o Quarto realiza o desejo verdadeiro — e não o que dizemos querer — confronta os personagens com o medo de sua própria essência.
“Stalker” conclui que a busca pela verdade não termina na conquista de um prêmio, mas na capacidade de manter a fé em um mundo que a despreza. Através da figura da filha do Stalker, “Monkey”, e do monólogo final de sua esposa, Tarkovsky sugere que o amor e a aceitação do sofrimento são as únicas respostas possíveis para o vácuo da existência. O filme não é apenas cinema; é uma experiência de transcendência que desafia o espectador a encarar seu próprio reflexo no altar da Zona.

Ficha Técnica de “Stalker” (1979)

  • Título original: Сталкер (Stalker)
  • Direção: Andrei Tarkovsky
  • Roteiristas: Arkady Strugatsky, Boris Strugatsky e Andrei Tarkovsky, baseado no romance “Roadside Picnic” de Arkady e Boris Strugatsky
  • Elenco principal:
  • Alexander Kaidanovsky como o Stalker
  • Anatoli Solonitsyn como o Escritor
  • Nikolai Grinko como o Cientista
  • Alisa Freindlich como a esposa do Stalker
  • Gênero: Ficção Científica, Drama
  • Duração: 2h 43min (163 minutos)
  • País de origem: União Soviética
  • Idioma: Russo

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