A Ferida Aberta da América
Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1978, no período emocional da retirada das tropas americanas do Sudeste Asiático, “Amargo Regresso” (Coming Home), dirigido por Hal Ashby, permanece como uma das obras mais contundentes do cinema de “Nova Hollywood”. Diferente de outros filmes de guerra que se perdem no espetáculo pirotécnico do combate, Ashby opta por um drama intimista que disseca as cicatrizes invisíveis deixadas pela Guerra do Vietnã no tecido social e psíquico dos Estados Unidos.
A trama gira em torno de Sally Hyde (Jane Fonda), a personificação da dona de casa conservadora e leal ao ideal militar de seu marido, o Capitão Bob Hyde (Bruce Dern). A partida de Bob para o Vietnã em 1968 força Sally a sair de sua bolha de proteção. Ao se voluntariar em um hospital de veteranos, ela reencontra Luke Martin (Jon Voight), um antigo colega de escola cuja vitalidade foi interrompida por uma lesão na medula espinhal que o deixou paraplégico. O desenvolvimento da relação entre Sally e Luke não é apenas um romance proibido, mas um despertar político. Através de Luke, Sally descobre uma realidade que o governo e a propaganda militar ocultam: a dor crônica, a amargura da negligência institucional e a desilusão com o patriotismo cego.
O filme serve como um tribunal cinematográfico sobre a intervenção militar. Ashby utiliza o hospital da Administração de Veteranos como uma metáfora para a própria nação: um lugar repleto de homens quebrados que o sistema prefere esquecer. A crítica ao sistema é sistêmica, expondo a burocracia desumana e a falta de recursos para os “heróis” que retornam. Luke Martin torna-se a voz dessa crítica; sua transição de um homem consumido pela raiva para um ativista anti-guerra culmina em um discurso final poderoso em uma escola primária, onde ele desconstrói o mito da glória militar para jovens estudantes, alertando-os de que a guerra não é como nos filmes.
A temática da amputação e reabilitação é tratada com um realismo cru e pioneiro. O filme não estiliza a deficiência física de Luke; ao contrário, integra-a à narrativa como uma reconquista da autonomia. A cena de sexo entre Sally e Luke é um marco cinematográfico por sua sensibilidade ao mostrar que a intimidade e o prazer transcendem as limitações físicas, devolvendo a Luke sua identidade como homem, e não apenas como um “caso médico”. Em contrapartida, vemos a desumanização de Bob Hyde, que, embora fisicamente intacto ao retornar, está psicologicamente destruído pelo Transtorno de Estresse Pós-Traumático. Enquanto Luke encontra cura no ativismo e no amor, Bob sucumbe à perda de sua identidade como guerreiro.
Embora os protagonistas pertençam a um círculo de oficiais (classe média), Ashby insere a classe trabalhadora através de personagens secundários, como Billy Munson (Robert Carradine). A exploração é evidente: jovens de classes menos favorecidas são enviados para lutar uma guerra cujos objetivos não compreendem, apenas para retornar a um país que não lhes oferece suporte emocional. A trilha sonora é fundamental nesse contexto; ao usar canções de The Rolling Stones, Simon & Garfunkel e The Beatles, o filme utiliza a cultura americana da época como um comentário irônico e melancólico. A música que antes celebrava a liberdade agora serve de fundo para a desolação dos corredores do hospital.
A direção de Hal Ashby é naturalista e empática, fugindo de ângulos dramáticos em favor de uma observação direta e honesta. A fotografia utiliza a luz natural da Califórnia para criar um contraste doloroso entre o “sonho americano” (praias, sol, casas suburbanas) e a escuridão interna dos veteranos. O clímax do filme é uma aula de montagem paralela: de um lado, Luke discursa contra a guerra para jovens; do outro, Bob Hyde tira suas roupas e entra no mar em um ato de auto-aniquilação simbólica. É o confronto final entre o homem que aceitou a verdade e o homem que foi destruído pela mentira institucional.
“Amargo Regresso” é, em última análise, um manifesto sobre a necessidade de humanidade em tempos de ideologias rígidas. Ao focar na relação humana e no custo individual da política externa, Hal Ashby criou uma obra que não apenas critica a Guerra do Vietnã, mas questiona qualquer sistema que coloque o poder acima da dignidade de seus cidadãos. É um filme sobre a dor de voltar para casa e descobrir que a “casa” que você conhecia não existe mais.
Aqui está a ficha técnica do filme “Amargo Regresso” (1978):
- Título original: Coming Home
- Direção: Hal Ashby
- Roteiro: Waldo Salt, Robert C. Jones
- Elenco:
- Jon Voight (Luke Martin)
- Jane Fonda (Sally Hyde)
- Bruce Dern (Capitão Bob Hyde)
- Penelope Milford (Vi Munson)
- Robert Carradine (Billy Munson)
- Música: Paul Williams
- Cinematografia: Haskell Wexler
- Edição: Don Zimmerman
- Duração: 126 minutos
- Gênero: Drama, Guerra
- País de origem: Estados Unidos
- Ganhou três Oscars (Melhor Ator para Jon Voight, Melhor Atriz para Jane Fonda e Melhor Roteiro Original)
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Texto excelente!