Análise do Filme: Ensina-me a Viver (1971)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

No contexto da Nova Hollywood dos anos 70, poucas obras conseguiram equilibrar o niilismo e a esperança de forma tão excêntrica quanto Ensina-me a Viver. Dirigido por Hal Ashby e roteirizado por Colin Higgins, o filme apresenta uma narrativa que, à primeira vista, parece uma comédia de humor acido sobre a obsessão mórbida de um jovem. No entanto, ao aprofundar-se na relação entre Harold e Maude, a obra revela-se um tratado profundo sobre a liberdade individual, a mortalidade e a coragem de ser autêntico em uma sociedade formatada pela conformidade.
A trama estabelece um contraste imediato através de seus protagonistas. Harold Chasen, um jovem aristocrata, encontra-se mergulhado em uma paralisia existencial, expressando seu tédio através de encenações teatrais de suicídio. Sua busca pela identidade está sufocada por uma mãe que representa a elite superficial e por instituições — a Igreja, o Exército e a Psicanálise — que tentam moldar seu comportamento. Em oposição, surge Maude, uma mulher de 79 anos que vive à margem de qualquer convenção. O encontro entre os dois em funerais, um passatempo compartilhado, inicia uma jornada de aprendizado onde a velhice ensina à juventude não como morrer, mas como viver.
A relação entre a juventude e a velhice é subvertida magistralmente. Harold, apesar de jovem, é estático e sombrio; Maude, próxima ao fim da vida, é dinâmica e anárquica. Essa inversão sugere que a vitalidade não é uma propriedade da idade cronológica, mas da disposição em abraçar o novo. Maude é a personificação da liberdade: ela rouba carros não por malícia, mas para lembrar ao mundo que a posse é uma ilusão e que o movimento é a essência da vida. Ela desafia Harold a sair de seu papel de espectador da própria tragédia para se tornar o protagonista de sua experiência.
Central a essa transformação está o tema da morte e da mortalidade. Para Harold, a morte é um grito por atenção, uma ferramenta estética. Para Maude, a morte é uma realidade orgânica e aceita. O filme sugere sutilmente que o otimismo radical de Maude é uma escolha consciente de alguém que sobreviveu aos horrores do século XX (evidenciado pela tatuagem de um campo de concentração em seu braço). Sua aceitação da finitude é o que lhe confere autoridade para celebrar cada momento. Ela ensina a Harold que o ciclo da vida exige o desapego e que a beleza reside na transitoriedade, como exemplificado na famosa metáfora do campo de margaridas: cada indivíduo é único, e a verdadeira tragédia é a tentativa social de nos tornar uma massa indiferenciada.
A direção de Hal Ashby utiliza uma estética naturalista que acentua o absurdo das situações. A fotografia transita entre a paleta fria e rigorosa da mansão dos Chasen e as cores quentes e desordenadas do ambiente de Maude. A trilha sonora, composta por Cat Stevens, funciona como o subconsciente de Harold, evoluindo de melodias melancólicas para hinos de libertação como “If You Want to Sing Out, Sing Out”. O humor negro serve como uma ponte necessária; ao rir do macabro, o espectador é desarmado para absorver a carga emocional da tragédia final.
Em suma, Ensina-me a Viver permanece uma obra atemporal por sua defesa intransigente da individualidade. O filme conclui que a maior rebeldia contra um mundo conformista e obcecado por aparências é a capacidade de amar e de se maravilhar com a existência, apesar de sua inevitável conclusão. Harold termina o filme não apenas tendo aprendido a amar outra pessoa, mas tendo aprendido a importância de sua própria presença no mundo.

Aqui está a ficha técnica do filme “Ensina-me a Viver” (Harold and Maude, 1971):

  • Título original: Harold and Maude
  • Direção: Hal Ashby
  • Roteiro: Colin Higgins
  • Elenco:
  • Bud Cort (Harold Chasen)
  • Ruth Gordon (Maude)
  • Vivian Pickles (Mãe de Harold)
  • Cyril Cusack (Glaucus)
  • Ellen Geer (Sunshine Doré)
  • Música: Cat Stevens
  • Cinematografia: Caleb Deschanel
  • Edição: William A. Sawyer, Edward Warschilka
  • Duração: 91 minutos
  • Gênero: Comédia, Drama, Romance
  • País de origem: Estados Unidos

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