Análise do Filme: Klute – O Passado Condena (1971)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1971, “Klute – O Passado Condena”, dirigido por Alan J. Pakula, não é apenas um marco do cinema policial, mas uma das principais obras do que viria a ser conhecido como a “Trilogia da Paranoia”. No contexto de uma América fragmentada pela Guerra do Vietnã e pela desconfiança institucional, o filme utiliza a estrutura de um neo-noir para explorar as profundezas da psique humana e a frieza das metrópoles modernas.
A narrativa é impulsionada pelo desaparecimento de Tom Gruneman, um executivo cuja única conexão com o submundo de Nova York é uma série de cartas obscenas enviadas a Bree Daniels (Jane Fonda). O detetive particular John Klute (Donald Sutherland) é contratado para investigar. No entanto, Pakula subverte a expectativa do thriller tradicional: o mistério do desaparecimento torna-se secundário à atmosfera de perigo que envolve Bree. A busca pela verdade, neste cenário, não é apenas factual, mas existencial, conforme o público é introduzido a um mundo de gravações secretas e observadores invisíveis.
A relação entre o investigador e a suspeita é o coração emocional da obra. John Klute personifica a rigidez puritana e o silêncio analítico; ele é o homem que observa. Já Bree Daniels é uma mulher de múltiplas facetas: aspirante a atriz, modelo e garota de programa. Para Bree, o trabalho sexual é uma forma de controle — ela atua para não ser vulnerável. A dinâmica evolui de forma atípica; Klute não busca puni-la, mas protegê-la. Esse despojamento de julgamento permite que Bree confronte sua própria alienação, revelando que sua independência é, em parte, uma armadura contra a intimidade emocional.
O filme integra sessões de terapia de Bree à narrativa, oferecendo um vislumbre raro da psicologia da personagem. A manipulação é o tema central: o antagonista manipula através do som (as fitas gravadas), enquanto a sociedade manipula através do poder econômico e sexual. Bree utiliza sua sexualidade para dominar homens, mas descobre que está presa em um sistema onde ela é o objeto de consumo. A obra aborda a posição da mulher na sociedade dos anos 70, retratando uma relação entre a busca por uma posição de autonomia pessoal e a predação masculina.
A estética de “Klute” é indissociável do trabalho do diretor de fotografia Gordon Willis. Através de uma iluminação chiaroscuro radical, Willis transforma Nova York em um labirinto de sombras e espaços industriais opressores. O uso de enquadramentos que frequentemente “cortam” os personagens ou os colocam no fundo do plano cria uma sensação constante de que eles estão sendo vigiados por uma terceira entidade. A direção de Pakula é habilidosa, utilizando o silêncio e o som ambiente para amplificar a paranoia, transformando a cidade em um personagem silencioso, frio e alienante.
Em última análise, “Klute – O Passado Condena” é um estudo sobre a perda da privacidade e a desintegração moral. O filme sugere que a verdadeira perversão não reside nos quartos onde Bree trabalha, mas na vigilância obsessiva e na frieza corporativa que o detetive e o criminoso representam à sua maneira. Ao final, a “verdade” encontrada é amarga: em um mundo de sombras e gravações, a conexão humana genuína é o único ato de rebeldia possível, ainda que frágil e incerto.

Ficha técnica do filme “Klute” (1971):

  • Título original: Klute
  • Direção: Alan J. Pakula
  • Roteiro: Andy Lewis, Dave Lewis
  • Elenco:
  • Donald Sutherland (John Klute)
  • Jane Fonda (Bree Daniels)
  • Roy Scheider (Frank Ligourin)
  • Música: Michael Small
  • Cinematografia: Gordon Willis
  • Edição: Carl Lerner
  • Duração: 114 minutos
  • Gênero: Thriller, Mistério
  • País de origem: Estados Unidos

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