Anatomia do Medo: Poder, Paranoia e a Estética do Controle
Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1974, no auge da desilusão política americana, “A Trama” (The Parallax View), dirigido por Alan J. Pakula, transcende o gênero do suspense político para se tornar um tratado niilista sobre a impotência do indivíduo perante sistemas invisíveis. No contexto atual, ao revisitarmos esta obra, a precisão com que Pakula previu a erosão da verdade e a manipulação da informação revela um filme que não é apenas um documento de sua época, mas um espelho sombrio da contemporaneidade.
A trama é impulsionada pela jornada de Joe Frady (Warren Beatty), um jornalista investigativo ambicioso e um tanto caótico. O assassinato de um candidato à presidência no topo do observatório Space Needle em Seattle serve como ponto de partida. O que parece ser um crime isolado revela-se, tempos depois, um processo sistemático de eliminação de testemunhas. Frady, ao tentar infiltrar-se na Corporação Parallax, acredita estar operando sob a lógica do “quarto poder”: a ideia de que a verdade, uma vez revelada, possui o poder de desmantelar a corrupção. Contudo, Pakula inverte subversivamente esse tropo: aqui, a busca pela verdade não leva à libertação, mas funciona como uma armadilha que consome o investigador.
A força visceral de “A Trama” reside em sua linguagem visual. A fotografia de Gordon Willis utiliza composições assimétricas e planos abertos que “esmagam” Beatty contra arquiteturas monumentais e frias. O uso de espaços vazios e sombras profundas sugere que o perigo não vem de becos escuros, mas de edifícios corporativos iluminados e higienizados. A cinematografia comunica visualmente o tema central: o indivíduo é irrelevante e minúsculo diante da escala das corporações que moldam a história.
O ponto nevrálgico do filme é a sequência do teste da Corporação Parallax. Através de uma montagem frenética de imagens — alternando entre ícones de felicidade doméstica, figuras históricas, violência e pornografia — Pakula demonstra como a informação e a semiótica são transformadas em armas. A Parallax não recruta apenas assassinos; ela identifica e radicaliza indivíduos alienados através de estímulos visuais. É uma crítica contundente à relação entre o poder e a informação, antecipando debates modernos sobre algoritmos e a aplicação de “testes lúdicos”” e sua relação com a violência do próprio indivíduo.
O filme dialoga diretamente com o trauma dos assassinatos de JFK e Robert Kennedy, além da sombra de Watergate. A comissão de inquérito que abre e fecha o filme, apresentada em um cenário de escuridão total com juízes cujos rostos mal vemos, simboliza a opacidade institucional. A crítica social de Pakula sugere que a democracia americana tornou-se uma fachada: os processos de decisão foram transferidos para entidades privadas (a Corporação Parallax) que operam sem validação e reconhecimento público e tratam a política como uma gestão de danos corporativos.
Diferente de Todos os Homens do Presidente, onde a imprensa vence, A Trama termina em uma nota de absoluto pessimismo. A eficiência da conspiração é tamanha que ela consegue cooptar o próprio esforço de resistência do protagonista para validar sua narrativa oficial. O filme influenciou desde a estética de Arquivo X até thrillers modernos como Michael Clayton (2007).
Em suma, “A Trama” permanece como o estudo definitivo sobre a paranoia sistêmica. Ele nos lembra que, em um mundo onde a informação é controlada por poderes sem face, a busca obstinada pela verdade pode ser o caminho mais rápido para a própria aniquilação.
A Trama (1974) – Ficha Técnica:
- Título original: The Parallax View
- Ano de lançamento: 1974
- Gênero: Thriller, Mistério
- Duração: 102 minutos
- País: Estados Unidos
- Direção: Alan J. Pakula
- Roteiro: David Giler, Lorenzo Semple Jr., Robert Towne
- Elenco:
- Warren Beatty (Joseph Frady)
- Paula Prentiss (Lee Carter)
- William Daniels (Austin Tucker)
- Kelly Thordsen (Sheriff L.D. Wicker)
- Hume Cronyn (Bill Rintels)
- Música: Michael Small
- Fotografia: Gordon Willis
- Produção: Alan J. Pakula
- Empresa produtora: Paramount Pictures
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