O Instituto Capobianco retoma, a partir de sexta-feira (16), a temporada do espetáculo A Palma, obra inédita que estreou em novembro de 2025 e retorna após breve pausa para os festejos de fim de ano. Em cartaz até 1º de fevereiro, com apresentações de sexta a domingo, em São Paulo, a montagem encerra a residência artística de um ano da mundana companhia no espaço e se consolida como uma das experiências mais densas e provocadoras da cena contemporânea paulistana ao refletir sobre o próprio fazer teatral, suas contradições, fragilidades e obsessões.
Escrito a quatro mãos por Claudia Barral e Marcos Barbosa, indicado ao Prêmio Jabuti 2025, o texto parte de um argumento concebido por Mariano Mattos Martins, ator e produtor que faz em A Palma sua estreia na direção teatral. O resultado é uma dramaturgia que articula camadas de ficção, memória e delírio, conduzindo o espectador por uma narrativa que se constrói menos pela linearidade e mais pela sobreposição de estados emocionais, imagens simbólicas e fragmentos de uma vida dedicada ao palco.
Em cena, três expoentes das artes cênicas brasileiras — Gilda Nomacce, Verónica Valenttino e Donizeti Mazonas — dão corpo à saga de Vânia Souto, atriz que sofre por não alcançar o estrelato e por ver sua trajetória marcada mais por frustrações do que por reconhecimento. Após um grave episódio de violência, Vânia recebe a visita dos amigos Marta Mourano e Sérgio Capanema, que tentam ajudá-la a enfrentar uma situação delicada envolvendo sua reputação. A partir desse encontro, a peça mergulha em um universo onírico no qual realidade e imaginação se confundem, fazendo do teatro um território de sobrevivência, fuga e reinvenção.
A pergunta que atravessa toda a obra — “o que mantém uma atriz viva?” — funciona como motor dramatúrgico e também como reflexão mais ampla sobre o lugar do artista na contemporaneidade. Questões como fama, talento, visibilidade, premiações e reconhecimento público surgem não como objetivos glorificados, mas como forças ambíguas, capazes tanto de alimentar sonhos quanto de provocar adoecimento emocional e existencial. A Palma expõe, com delicadeza e crueza, os mecanismos de desgaste que atravessam o cotidiano de quem escolhe viver da arte.
Inspirada na frase da escritora espanhola Rosa Montero, “a ficção é uma viagem ao outro”, a montagem se estrutura como um teatro dentro do teatro, no qual diferentes camadas ficcionais se sobrepõem e dialogam. “Esta viagem ao outro é uma espécie de ode ao teatro, esse espaço tão caro onde a loucura é sagrada. A peça apresenta um contexto ficcional permeado por várias outras camadas ficcionais, que nos conduzem a essa navegação proposta em A Palma”, afirma o diretor Mariano Mattos Martins
Misturando comicidade e melancolia, momentos de leveza e extrema desolação, os personagens transitam por diversos universos, espaços e situações que emergem de um mesmo ponto de origem: o apartamento de Vânia. Ao mesmo tempo íntima e universal, a montagem constrói uma experiência que ultrapassa a narrativa tradicional e se expande em ecos de memória, fantasias interrompidas e aparições inesperadas, revelando como o ato de sonhar está profundamente ligado ao desejo de permanecer em cena.
A encenação é potencializada pela trilha sonora original de Negro Leo, que dialoga com os estados emocionais da dramaturgia, e pela iluminação de Wagner Antônio, responsável por criar atmosferas que transitam entre o real e o imaginário. Esses elementos contribuem para uma experiência sensorial que reforça o caráter fragmentado e poético da obra.
Mais do que contar a história de uma atriz em crise, A Palma se afirma como um convite à reflexão sobre a sobrevivência artística em meio às dores e maravilhas do ofício de ser ator. Ao colocar em cena os sonhos, traumas e desejos que atravessam a profissão, o espetáculo propõe um olhar sensível e crítico sobre a busca permanente por sentido, reconhecimento e permanência no palco.
Como atividade paralela à temporada, o Instituto Capobianco recebe, na terça-feira (27), a palestra “Sonhos, delírios e ficções: a construção de personagens de A Palma”, com os dramaturgos Marcos Barbosa e Claudia Barral, que discutem processos de pesquisa, criação dramatúrgica e a relação entre texto e cena, em diálogo direto com o público
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