Marcelo Kricheldorf
Lançado no final da década de 70, sob a direção sensível e provocadora de Norman Jewison, o filme “Justiça para Todos” (…And Justice for All) transcende o gênero do drama de tribunal para se tornar um manifesto sobre a falência das instituições. Através da trajetória do advogado Arthur Kirkland, o longa disseca as entranhas de um sistema que, embora concebido para proteger o cidadão, acaba por se tornar um labirinto de tecnicalidades amorais e abusos de poder.
A narrativa se centra em Arthur Kirkland (Al Pacino), um advogado de defesa em Baltimore que mantém, com dificuldade, sua integridade em um ambiente cínico. O roteiro de Valerie Curtin e Barry Levinson utiliza subtramas paralelas — como o caso de um cliente preso injustamente por um erro de identificação — para ilustrar a negligência do sistema. No entanto, o conflito principal surge quando Kirkland é forçado a defender o Juiz Fleming (John Forsythe). Fleming, um magistrado autoritário que personifica a rigidez impiedosa da lei, é acusado de estupro. A ironia central é devastadora: o homem que mais despreza a clemência depende agora de um advogado que ele mesmo tentou destruir, criando um jogo de chantagem e tensão moral.
Jewison retrata o tribunal não como um templo da verdade, mas como um mercado de trocas políticas. A crítica recai sobre a desumanização: juízes que decidem o destino de vidas com base em prazos burocráticos e promotores mais interessados em estatísticas de condenação do que na justiça. A influência do poder é onipresente; o Juiz Fleming utiliza sua posição não para provar inocência, mas para manipular o processo, evidenciando que, no topo da hierarquia, as leis são ferramentas de autoproteção da elite, e não escudos para os vulneráveis.
O filme mergulha no dilema fundamental da advocacia: a fronteira entre o dever profissional e a consciência pessoal. Kirkland possui uma relação de profunda empatia com seus clientes, sentindo o peso de cada condenação injusta. O filme questiona o “privilégio advogado-cliente” quando este serve para acobertar crimes bárbaros. Quando Kirkland descobre que seu cliente é, de fato, culpado, a narrativa coloca em xeque a ética: deve o advogado lutar pela absolvição de um culpado para manter o sistema funcionando, ou deve ele implodir o sistema para garantir que a justiça moral prevaleça?
A atuação de Al Pacino é o coração pulsante da obra. Ele personifica a fadiga de quem luta contra o sistema. Sua performance atinge o ápice no discurso de abertura do julgamento final. O grito “You’re out of order!” (Você está fora de ordem!) não é apenas uma quebra de protocolo; é o reconhecimento de que toda a estrutura judiciária está “fora de ordem” e corrompida. Ali, a verdade deixa de ser uma peça processual para se tornar uma arma de autodestruição profissional, onde Kirkland sacrifica a própria carreira para não se tornar cúmplice da farsa.
“Justiça para Todos” permanece atual. Ao explorar a tensão entre a letra fria da lei e a busca humanista pela justiça, o filme de Norman Jewison desafia o espectador a refletir sobre a integridade individual em sistemas falidos. A obra não oferece soluções fáceis, mas deixa claro que, sem a verdade e a empatia, o tribunal não passa de um teatro de sombras onde a justiça é a primeira vítima.
Justiça para Todos (1979) – Ficha Técnica
- Título original: …And Justice for All
- Ano de lançamento: 1979
- Gênero: Drama, Thriller
- Duração: 119 minutos
- País: Estados Unidos
- Direção: Norman Jewison
- Roteiro: Valerie Curtin, Barry Levinson
- Elenco:
- Al Pacino (Arthur Kirkland)
- John Forsythe (Henry T. Fleming)
- Christine Lahti (Kay Porter)
- Jeffrey Tambor (Jay Porter)
- Craig T. Nelson (Frank Bowers)
- Música: Dave Grusin
- Fotografia: Victor J. Kemper
- Produção: Norman Jewison, Patrick J. Palmer
- Empresa produtora: Columbia Pictures
![]()
