Marcelo Kricheldorf
Kleber Mendonça Filho consolidou-se, em 2026, como a voz mais influente do cinema brasileiro contemporâneo. Partindo da crítica cinematográfica para a realização, o diretor pernambucano construiu uma filmografia que funciona como uma radiografia das feridas sociais do Brasil. Desde os curtas experimentais até o fenômeno global de Bacurau e o histórico triunfo de O Agente Secreto, sua obra utiliza o espaço urbano e a memória como campos de batalha política e de afirmação cultural.
Nascido no Recife em 1968, Mendonça utilizou sua formação jornalística para apurar um olhar rigoroso sobre a realidade. Após curtas premiados, estreou no longa de ficção com O Som ao Redor (2012), seguido pelo aclamado Aquarius (2016). Em 2019, expandiu seu alcance com Bacurau, explorando o cinema de gênero como resistência. Em 2023, lançou o documentário Retratos Fantasmas, uma elegia aos cinemas de rua. No entanto, é em O Agente Secreto (2025/2026) que ele alcança um novo patamar de prestígio, unindo suspense político e drama histórico de forma magistral.
Ambientado em 1977, durante a ditadura militar, o filme acompanha Marcelo (Wagner Moura), um professor que foge de um passado violento em São Paulo para o Recife, apenas para se ver cercado por paranoia e vigilância estatal. Em 2026, a obra tornou-se um marco histórico: no Globo de Ouro, foi o primeiro filme brasileiro indicado a Melhor Filme de Drama e venceu as categorias de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Ator em Drama para Wagner Moura. O longa é também o representante oficial do Brasil na corrida pelo Oscar de 2026.
A espinha dorsal do cinema de Mendonça é a análise das tensões de classe. Ele utiliza a arquitetura — seja o apartamento de Aquarius ou a Recife setentista de O Agente Secreto — para revelar como o poder atua para apagar histórias e pessoas. Em suas obras, a autoridade manifesta-se através da vigilância e do controle do espaço. Em O Agente Secreto, essa crítica é amplificada ao mostrar como o Estado cria “inimigos” para manter o controle social, fundindo o suspense com o documento histórico.
Para o cineasta, a preservação da memória é um ato político. Se em Retratos Fantasmas ele investiga a perda da identidade coletiva através do urbanismo, em O Agente Secreto ele aborda a “amnésia” nacional sobre o passado autoritário. Esteticamente, Mendonça combina o realismo social brasileiro com influências do cinema de gênero americano dos anos 70, como Alfred Hitchcock e John Carpenter. Sua linguagem é marcada por um design de som imersivo e zooms lentos que isolam os personagens em seus ambientes.
Em 2026, o legado de Kleber Mendonça Filho transcende os prêmios. Ele provou que a força do cinema brasileiro reside na sua especificidade local: quanto mais fiel às suas raízes pernambucanas, mais universal sua mensagem se torna. Ao desafiar o Brasil a confrontar suas sombras e sua resistência cultural, Mendonça não apenas registra a história; ele ajuda a moldar a consciência crítica de uma geração.
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