Logan “Eu machuquei a mim mesmo hoje Para ver se ainda sinto Eu me concentrei na dor A única coisa que é real” Esses versos de abertura da canção “Hurt”, do grupo Nine Inch Nails, cuja versão gravada por Johnny Cash em 2002 foi usada no trailer do filme Logan, falam muito sobre o mesmo. O diretor James Mangold gosta muito de Cash, inclusive fez” Johnny e June” cinebiografia de Johnny Cash, mas para além disso, quis com a letra da música mostrar, já no trailer, que esse não era mais um filme de super herói. Epílogo da trajetória do mutante solitário Wolverine, não é um filme apenas desse gênero, embora tenha as cenas de luta próprias do mesmo. Com um trabalho de direção de atores potente, leva Hugh Jackman e Patrick Stewart {Professor Xavier} a mostrar o lado humano de seus personagens. Filosófico, esse longa dirigido por Mangold,baseado na HQ:” O Velho Logan”, teve a sua estreia em fevereiro de 2017 no Festival de Berlim, e foi considerado por muitos críticos o melhor filme de heróis de quadrinhos já lançado. Mangold em seu longa flerta claramente com o faroeste. A fotografia de John Mathieson vai nos revelar um cenário de poeira, deserto, fogo e desolação típicos do mesmo, enquanto Logan encarna o cavaleiro solitário. Lembrando que o diretor é autor de obras como “Os Indomáveis” e “Indiana Jones 5”, o primeiro um western declarado e o segundo com uma pitada do gênero. Nesse cenário, num futuro distópico, Wolverine está envelhecido. O adamantium que antes lhe curava de todo e qualquer ferimento, agora o está matando. Seu corpo e seu rosto aparecem cheios de cicatrizes. Professor Xavier está sofrendo de demência e precisa de cuidados constantes.E,é justamente por terem de mostrar a doença e o envelhecimento de seus personagens que os atores podem dar uma grande interpretação, mostrando mais do que superpoderes. O filme toca em questões caras a nós humanos: vida e morte, saúde e doença e também pertencimento. É quando surge Laura, uma menina mutante. • Wolverine vê nela o que ele já foi um dia: sua capacidade de se regenerar enquanto ele precisa de álcool e comprimidos para suportar as dores do corpo e da alma. Porém Laura é a verdadeira medicação de que ele necessita, sua motivação e até obrigação para viver, viver o tempo que lhe resta, já que o velho sempre tem de ceder lugar ao novo. Uma cena emblemática disso é a luta entre Wolverine e o mutante criado para destruí-lo: X24, onde Hugh Jackman interpreta ambos, o jovem lutando contra si mesmo envelhecido, fraco, doente.• Spoiler: Laura é sua filha, criada a partir de seu material genético fecundado em uma mulher, em um laboratório que depois te ter gerado várias crianças dessa forma, agora decide que é melhor matá-las. Professor Xavier acaba se tornando o que sempre foi, sua figura paterna, que agora precisa de cuidados, e lhe orienta que ainda tem tempo, que a filha o pode proporcionar felicidade, libertá-lo da solidão na qual sempre viveu. E ele consegue ter o que nós todos buscamos e precisamos, pertencer, ter uma família {família podendo ser qualquer laço de afeto}.• Dafne Keen interpreta Laura muito bem, revelando aos poucos que ela não era apenas agressividade, demonstrando um grande amor pelas pessoas que se importavam de verdade consigo. Em outro momento que alude ao faroeste Xavier e Laura assistem ao filme: “Os brutos também amam” e ouvem o personagem Shane dizendo que um homem não podia fugir ao que era, e que depois de um homicídio nada continua igual, fala essa usada posteriormente pela própria Laura numa oração fúnebre. Belo, melancólico e muito profundo, uma despedida digna para o mutante que escolheu sempre a solidão com medo de ferir aos que ama, como muitos humanos, cientes de suas limitações o fazem.
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