Marcelo Kricheldorf
Mario Bava não foi apenas um cineasta; foi um alquimista visual que transformou as limitações orçamentárias do cinema italiano em obras-primas de atmosfera e técnica. Frequentemente operando como diretor, roteirista e diretor de fotografia, Bava consolidou-se como a figura central na transição do horror gótico clássico para o terror moderno e psicológico. Sua obra é um estudo sobre a percepção humana, onde a luz, a cor e a sombra narram tanto quanto o roteiro.
A gênese do estilo de Bava reside na sua profunda compreensão da luz, herdada de seu pai, o escultor e pioneiro de efeitos especiais Eugenio Bava. Sua estética é profundamente devedora do Expressionismo Alemão da década de 1920. Bava resgatou o uso de sombras angulares e cenários distorcidos, mas deu a eles uma nova vida através do Technicolor. Enquanto o expressionismo original era sombrio e monocromático, Bava criou um “Barroco Psicodélico”. Em filmes como Seis Mulheres para o Assassino (1964), ele utiliza iluminação saturada — azuis elétricos, verdes venenosos e vermelhos profundos — que não buscam o realismo, mas sim uma hipnose visual que transporta o espectador para um plano puramente sensorial.
Um dos temas recorrentes na filmografia de Bava é a fragilidade da realidade. Para o diretor, o mundo tangível é apenas uma fachada que esconde horrores ancestrais ou perversões psicológicas. Em Operazione Paura (1966), a realidade física se dissolve em um labirinto de pesadelos espaciais, onde o tempo é circular e os cenários parecem mudar conforme a percepção dos personagens. Essa relação entre o real e o fantástico é mediada pela música, que funciona como um elemento narrativo vital. As trilhas sonoras nos filmes de Bava, variando do gótico orquestral ao jazz dissonante, servem para desestabilizar o público, pontuando a transição da normalidade para o delírio.
A exploração da morte e da decadência em Bava é física e metafórica. Seus cenários são frequentemente povoados por mansões em ruínas, cemitérios neblinosos e estátuas quebradas, simbolizando o declínio da aristocracia ou a podridão da alma humana. Diferente do horror moralista, Bava apresenta uma visão niilista onde a relação entre o bem e o mal é ambígua. Em A Máscara do Demônio (1960), a vilã e a heroína compartilham o mesmo rosto (Barbara Steele), sugerindo que a maldade é uma semente latente em todos, aguardando o momento certo para florescer através da vingança ou da ganância.
A carreira de Bava é marcada por uma evolução técnica constante. Ele começou refinando o terror gótico em preto e branco e migrou para a criação de gêneros inteiros. Com A Garota que Sabia Demais/Olhos Diabólicos (1963) e o estilizado Seis Mulheres para o Assassino, Bava estabeleceu os pilares do Giallo: o assassino enigmático, o fetichismo visual, as mortes coreografadas e a trama de mistério urbano. Mais tarde, com Banho de Sangue (1971), ele subverteu as convenções ao focar na mecânica do assassinato, criando involuntariamente o subgênero slasher, que dominaria o cinema americano na década de 1980.
O legado de Mario Bava transcende os créditos de seus filmes. Sua influência é detectável na paleta de cores de Dario Argento, no suspense atmosférico de John Carpenter e até na estética narrativa de Martin Scorsese e Quentin Tarantino. Bava ensinou ao cinema que o medo não vem do que vemos, mas de como vemos. Ao elevar o cinema “B” ao status de arte visual alta, ele garantiu que sua exploração da sombra e da luz continuasse a assombrar e inspirar o imaginário coletivo décadas após sua partida.
![]()


Parabéns pelo Artigo
Parabéns pelo artigo, Mario Bava, mestre do Giallo.