Marcelo Kricheldorf
Federico Fellini é, sem dúvida, o cineasta que melhor traduziu a transição da sobriedade do neorrealismo italiano para a exuberância do “neobarroco” cinematográfico. Sua obra não é apenas uma sucessão de imagens; é um conjunto de excessos, tensões e contrastes que dialogam diretamente com a estética do século XVII. O cinema de Fellini, ao abraçar o monumental e o grotesco, transforma a tela em um altar onde o sagrado e o profano coexistem em eterna tensão.
A estética barroca em Fellini manifesta-se, primeiramente, na ocupação do espaço. Influenciado pela arquitetura barroca de Roma, o diretor utiliza cenários que evocam a monumentalidade e a distorção. Em filmes como Roma e Casanova, o espaço não é um mero pano de fundo, mas um protagonista que “envolve” o espectador, simulando a arquitetura e as perspectivas infinitas das igrejas do século XVIII. Há uma preferência pelas curvas, pelo movimento constante da câmera e pelo transbordamento emocional, criando um cinema de pura teatralidade onde a cenografia dita o ritmo da alma.
A influência da pintura barroca é evidente na composição de cada plano. Fellini bebe diretamente da fonte de mestres como Caravaggio, utilizando o chiaroscuro (luz e sombra) para conferir dramaticidade psicológica aos personagens. Esse uso da luz não busca a clareza, mas a revelação: a luz destaca o detalhe grotesco, a ruga, a expressão exagerada, enquanto a sombra esconde o mistério e a incerteza. Como nas telas tenebristas, o contraste serve para acentuar a dualidade humana; a luz da razão lutando contra as sombras do inconsciente.
A narrativa de Fellini opera no limiar entre o real e o fantástico, uma característica intrínseca ao espírito barroco, que via o mundo como um “teatro da vida”. Essa fluidez entre o sonho e a vigília é alimentada por uma influência da literatura barroca, onde figuras de linguagem como a hipérbole (o exagero) e a antítese (o contraste) são traduzidas em imagens. Seus personagens são paradoxos vivos: a prostituta com coração de santa, o aristocrata decadente, o palhaço melancólico. Essa construção literária visual reforça a ideia de que a realidade é instável e puramente ilusória.
O Barroco é a arte da crise, e Fellini utiliza essa estética para realizar uma profunda crítica social. Através da representação da decadência, ele expõe o vazio da burguesia italiana e a perda de valores espirituais no pós-guerra. O conceito de Memento Mori (lembra-te de que morrerás) permeia obras como A Doce Vida e Satyricon, onde banquetes suntuosos e orgias terminam em cinzas e silêncio. A morte, em Fellini, não é apenas o fim da vida, mas a sombra que dá sentido ao hedonismo (prazer como principio da vida) desesperado de seus protagonistas.
Por fim, a representação da identidade em Fellini é puramente barroca: ela é performática. Inspirado pelo uso de máscaras e pelo teatro, o diretor sugere que o “eu” não é uma unidade sólida, mas uma construção de papéis. Em Fellini ½, o protagonista Guido se perde entre suas memórias, seus desejos e as expectativas alheias, refletindo a crise de identidade do homem moderno que, tal como o homem barroco, encontra-se perdido em um universo vasto, complexo e sem um centro fixo.
A obra de Federico Fellini é o renascimento do Barroco através da lente da câmera. Ao unir a tradição pictórica (refente a pintura) e arquitetônica da Itália clássica com as angústias da modernidade, Fellini criou uma linguagem única. Seu cinema nos ensina que a beleza reside no excesso, que a verdade se esconde no fantástico e que, no grande espetáculo da vida, somos todos atores em um cenário onde a luz só faz sentido se houver a sombra.
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Parabéns pelo artigo