Análise “O MESTRE DOS BRINQUEDOS” (1989)

Critica de Filmes Terror

Não existe nenhuma fórmula certa para que um filme trash ganhe o status de cult. Quando até mesmo a alcunha de trash é discutível, como decidir quando um filme pode ser rotulado como “ruim” e ao mesmo tempo “memorável”? Ou digno de atenção e admiração, apesar de suas aparentes falhas. Talvez haja um equilíbrio entre originalidade, gambiarras técnicas e uma certa convicção ingênua de seus realizadores. Se esse tripé estiver firme e forte e todo o resto do filme for um desastre, talvez tenhamos um grande exemplar do “tão ruim que é bom”. Nesse sentido, O Mestre dos Brinquedos, terror de 1989, é um exemplar perfeito.

A história, criada pelo produtor Charles Band e pelo diretor David Schmoeller, mostra um grupo de pessoas com poderes psíquicos que chegam em um grande hotel abandonado na Califórnia. Atraídos até o local por um aviso enviado de forma simultânea a suas mentes, essa equipe de sensitivos é formada pelo professor universitário Alex (Paul Le Mat, que do visual de herói clássico possui apenas o penteado extravagante), a cartomante Dana (Irene Miracle) e a dupla de pesquisadores tarados Frank (Matt Roe) e Clarissa (Kathryn O’Reilly). Ao chegarem no hotel, eles descobrem o caixão de seu antigo colega Neil (Jimmie F. Skaggs), que acaba de falecer e deixou viúva a sua jovem esposa Megan (Robin Frates), única herdeira da propriedade. Apesar de Alex ter uma simpatia por Megan – devido aos seus sonhos de premonição indicarem que a moça corre perigo – seus colegas logo entram em conflito com ela, revelando que Neil passou todos para trás em relação a um projeto antigo: encontrar os segredos escondidos de Andre Toulon, o Mestre dos Brinquedos. Interpretado por William Hickey durante uma única cena de flashback, Toulon era um marionetista francês durante a Segunda Guerra Mundial que descobriu um antigo ritual egípcio capaz de dar vida a objetos inanimados, e o utilizou em seus próprios fantoches. O que o grupo não sabe é que os fantoches de Toulon estão se esgueirando sorrateiramente pelos corredores escuros do hotel, engajados em matar cada um deles.

Parece muita história para apenas 83 minutos de filme, e é mesmo. Ainda mais se considerarmos que os bonecos assassinos deveriam ser o chamariz da trama, mas possuem relativamente pouco tempo de tela. Mesmo assim, o design dos fantoches impressiona por sua inventividade. Apesar dos filmes posteriores apresentarem novos bonecos, os que aparecem aqui são tão marcantes a ponto de sempre terem presença garantida. Principalmente o Blade, o fantoche de rosto fantasmagórico, sobretudo e chapéu pretos e uma navalha e um gancho  no lugar das mãos, que acabou se tornando o mascote da franquia. Mas também temos o Pinhead (não confundir com seu homônimo mais famoso de Hellraiser), com suas feições de homem bruto e o diferencial de possuir mãos humanas em tamanho real, o Tunneler, um fantoche de soldado com uma grande furadeira no topo da cabeça, a Leech Woman, uma barbie gótica que vomita sanguessugas (uma das imagens mais perturbadoras do filme, e o Jester, um boneco de bobo da corte com feições giratórias, e que parece ser o menos violento de seus colegas. Os bonecos foram criados pelo supervisor de efeitos especiais David Allen e sua equipe, responsáveis também pelo ótimo uso de stop motion na movimentação dos personagens.

O visual dos fantoches é o principal responsável pela longevidade da franquia, que já conta com 14 filmes. Com certeza, muito mais do que a história, que parece mais complexa do que precisaria ser e, ainda assim, cheia de buracos. Informações que parecem ter alguma relevância são abandonadas, como Clarissa tendo uma visão de Neil cometendo um estupro no passado. Enquanto outras informações que deveriam ser relevantes para a trama são completamente ignoradas, como a real natureza do ritual egípcio, a importância da personagem da camareira interpretada por Mews Small (ela era cúmplice do Neil no final?) ou o destino dos fantoches na conclusão do filme. Tudo isso é sintoma de um filme que foi muito picotado durante a edição e de elementos de roteiro que foram repensados após as filmagens. Talvez isso explique, além do custo maior das cenas com os fantoches, porque eles ficaram tão ausentes do produto final.

Apesar de tudo isso, O Mestre dos Brinquedos possui algumas virtudes evidenciadas pelo seu charme particular. Mesmo que os fantoches não apareçam muito, a verdade é que os personagens humanos são tão cartunescos e interessantes quanto eles. O grupo de psíquicos é apresentado como pessoas prazerosamente imorais, hedonistas e cínicas. Com a exceção de Alex, que realmente é o personagem mais chato. Mas eles também são tão bizarros, cada um à sua maneira. Enquanto Frank e Clarissa querem transar em todos os cômodos do hotel ele fica falando de suas intenções de dominar o mundo, ao mesmo tempo que Dana, mesmo estando quase sempre bêbada, faz rituais de exorcismo acompanhada por seu querido cachorrinho empalhado. Além disso, Neil é o tipo de vilão canastrão e exagerado do qual um filme desses sempre se beneficia. E a montagem capenga não atrapalha na criação de um clima onírico e surreal que permeia praticamente todas as cenas, como quando Alex tem um sonho com as cabeças decepadas de seus colegas sorrindo para ele em sua cama, ou o momento que a Leech Woman regurgita suas sanguessugas de forma erótica sobre o torso de Frank.

O Mestre dos Brinquedos sabe que não é o melhor filme do mundo, mas é óbvio que foi feito com um carinho equivalente. É um trash tão autêntico e sincero que quase serve como retrato de uma época no cinema – ou no vídeo, já que não foi lançado originalmente nas salas -em que havia muitas ambições e aspirações artísticas que iam além de coisas triviais como talento, bom senso ou orçamento. Seria impossível de ser feito hoje sem vir acompanhado de uma irritante autoparódia, uma consciência de si mesmo que transformaria tudo em piada e aceno para o público. Não se consideraria importante, e por isso mesmo não seria. Ainda preciso ver os filmes mais recentes da franquia, mas temo que eles possam ter seguido por esse caminho.

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