o álbum carrega o nome Black Sabbath, mas soa, em essência, como aquilo que de fato foi concebido para ser: um trabalho solo de Tony Iommi.
Poucos discos da história do heavy metal expõem de forma tão clara uma crise de identidade quanto Seventh Star. Lançado em 1986, o álbum carrega o nome Black Sabbath, mas soa, em essência, como aquilo que de fato foi concebido para ser: um trabalho solo de Tony Iommi. O resultado é um registro singular, controverso e frequentemente mal compreendido — não por falta de qualidade, mas por nascer em um momento em que o próprio conceito de “Black Sabbath” já não era consenso nem entre seus integrantes.
Após a retomada de prestígio com Ronnie James Dio no início dos anos 1980 e a breve e turbulenta passagem de Ian Gillan em Born Again (1983), o Sabbath mergulhou em um ciclo de instabilidade quase permanente. A saída de Gillan para retomar o Deep Purple, a ausência de Geezer Butler e as tentativas frustradas de encontrar um novo vocalista deixaram claro que a banda havia se transformado em algo centrado exclusivamente na figura de Iommi. Seventh Star surge exatamente desse vácuo.
Musicalmente, o álbum se afasta do peso denso e sombrio que definiu o Sabbath dos anos 1970. Em seu lugar, apresenta uma sonoridade mais melódica, polida e alinhada ao hard rock e ao AOR que dominavam o mainstream da década de 1980. As guitarras de Iommi seguem inconfundíveis, mas agora menos ameaçadoras, mais abertas e acessíveis. Faixas como “In for the Kill” e “Turn to Stone” ainda carregam tensão e energia, mas sem a atmosfera opressiva que marcou clássicos do passado.
A presença de Glenn Hughes nos vocais é, ao mesmo tempo, o grande trunfo e o maior ponto de ruptura do disco. Dono de uma voz poderosa, soulful e extremamente expressiva, Hughes entrega performances tecnicamente irrepreensíveis, especialmente em “Heart Like a Wheel” e “In Memory…”. No entanto, sua abordagem vocal — profundamente ligada ao soul e ao hard rock — reforça a sensação de deslocamento estético. Em canções como “No Stranger to Love”, a distância em relação ao universo tradicional do Sabbath é tão grande que o estranhamento se torna inevitável.
Essa desconexão não é apenas sonora, mas conceitual. Seventh Star não soa como um álbum de banda, e sim como o retrato de um projeto conduzido sob tensão, marcado por decisões externas e interesses comerciais. A imposição da gravadora para que o disco fosse lançado como Black Sabbath — contra a vontade tanto de Iommi quanto de Hughes — comprometeu sua recepção desde o primeiro dia. O público não sabia exatamente o que estava ouvindo, e o álbum acabou sendo julgado mais pelo que não era do que pelo que de fato oferecia.
Ainda assim, há méritos evidentes. A produção é limpa, os músicos — Eric Singer na bateria e Dave Spitz no baixo — entregam performances sólidas, e o repertório possui coesão interna. O problema não está na execução, mas no rótulo. Como obra solo de Tony Iommi, Seventh Star talvez tivesse sido recebido como um experimento elegante e ousado. Como álbum do Black Sabbath, tornou-se um corpo estranho em uma discografia já fragmentada.
Quase quatro décadas depois, Seventh Star permanece como um documento honesto de um período turbulento. Não é um clássico, tampouco um fracasso absoluto. É, antes de tudo, um disco de transição — um retrato de um criador tentando seguir em frente enquanto o peso de um nome lendário insiste em puxá-lo para trás. Para quem aceita ouvi-lo sem as expectativas do “Sabbath tradicional”, ele revela qualidades que o tempo, lentamente, começa a reconhecer.
fonte:https://igormiranda.com.br
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