Análise do Filme: O Poderoso Chefão 3 (1990)

Critica de Filmes

Crepúsculo de um Império: A Tragédia da Redenção

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1990, dezoito anos após o início da saga, O Poderoso Chefão 3, dirigido por Francis Ford Coppola, ocupa um lugar singular na história do cinema. Longe de ser apenas uma continuação comercial, o filme funciona como o epílogo melancólico de uma tragédia grega moderna, transportando o espectador das sombras dos escritórios de Nova York para os palácios dourados do Vaticano e as colinas da Sicília.
A trama se ambienta no final da década de 1970. Michael Corleone (Al Pacino) é agora um homem envelhecido e assombrado pelo passado. Seu objetivo central não é mais a expansão territorial, mas a legitimação. Ao tentar adquirir a Internazionale Immobiliare, Michael busca limpar o nome da família e transferir sua riqueza para negócios lícitos vinculados à Igreja Católica. No entanto, ele descobre que o mundo das altas finanças e da política religiosa pode ser tão letal e corrupto quanto o submundo que ele tentou abandonar.
O tema central desta conclusão é a impossibilidade de apagar o rastro de sangue. Michael busca redenção, simbolizada por sua confissão ao Cardeal Lamberto, onde chora pelo assassinato de seu irmão, Fredo. Contudo, a “herança” da família Corleone é uma força gravitacional. Isso se manifesta na figura de Vincent Mancini (Andy Garcia), o filho ilegítimo de Sonny. Vincent representa o fogo e a impulsividade que Michael já não possui, tornando-se o sucessor inevitável que garante a sobrevivência da organização, mas ao custo da alma da família.
Coppola utiliza o filme para expandir a crítica social iniciada nos anos 70. A obra sugere que a criminalidade não é uma exclusividade de guetos italianos, mas está entranhada nas instituições mais respeitadas do mundo. O escândalo do Banco do Vaticano e a relação com a máfia são usados para mostrar que, no topo da pirâmide social, o poder é mantido através de conspirações e assassinatos “elegantes”.
A cultura siciliana atinge seu ápice estético no terceiro ato. Todo o desfecho ocorre durante a estreia de Anthony, filho de Michael, na ópera Cavalleria Rusticana, no Teatro Massimo. A direção de Coppola funde a ação no palco com a violência nos bastidores, transformando a realidade em uma extensão da ópera. O grito silencioso de Michael na escadaria do teatro é um dos momentos mais poderosos da história do cinema, simbolizando a perda definitiva de sua identidade como pai em favor de sua identidade como “Don”.
A atuação de Al Pacino é distinta dos filmes anteriores; ele substitui a frieza calculista por uma vulnerabilidade cansada. Andy Garcia entrega o carisma necessário para revitalizar a franquia, enquanto a direção de Coppola mantém a grandiosidade visual, apesar das polêmicas em torno da escalação de Sofia Coppola (cuja performance, embora criticada na época, reforça a inocência da vítima que a personagem exigia).
Embora tenha vivido à sombra de seus predecessores, o filme foi reavaliado positivamente ao longo das décadas, especialmente após o lançamento da versão do diretor em 2020, intitulada The Godfather, Coda: The Death of Michael Corleone. A obra permanece como um estudo profundo sobre a solidão do poder e a futilidade de tentar fugir das consequências de escolhas morais passadas

Ficha Técnica de “O Poderoso Chefão 3” (1990)

  • Título original: The Godfather: Part III
  • Direção: Francis Ford Coppola
  • Roteiristas: Francis Ford Coppola e Mario Puzo
  • Elenco principal:
  • Al Pacino como Michael Corleone
  • Diane Keaton como Kay Adams-Corleone
  • Talia Shire como Connie Corleone-Rizzi
  • Andy García como Vincent Corleone
  • Eli Wallach como Don Altobello
  • Joe Mantegna como Joey Zasa
  • George Hamilton como B.J. Harrison
  • Bridget Fonda como Grace Hamilton
  • Sofia Coppola como Mary Corleone
  • Raf Vallone como Cardeal Lamberto
  • Franc D’Ambrosio como Anthony Corleone
  • Helmut Berger como Frederick Keinszig
  • Don Novello como Dominic Abbandando
  • John Savage como Father Andrew Hagen
  • Mario Donatone como Mosca
  • Gênero: Drama, Crime
  • Duração: 2h 42min (162 minutos)
  • País de origem: Estados Unidos
  • Idioma: Inglês, Italiano, Espanhol

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