Análise do Filme: São Bernardo (1972)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1972, sob o rigor da ditadura militar brasileira, o filme São Bernardo, dirigido por Leon Hirszman, transcende a mera adaptação literária para se tornar um dos estudos mais profundos sobre a formação do capital e a desintegração do indivíduo no cinema nacional. Através da trajetória de Paulo Honório, o longa-metragem disseca as entranhas de um sistema que transforma homens em coisas e sentimentos em mercadoria.
A trama estrutura-se como um acerto de contas de Paulo Honório (Othon Bastos) com o próprio passado. Ex-guerrilheiro da vida, homem que saiu da miséria absoluta para a posição de latifundiário, ele narra sua história enquanto tenta escrever suas memórias. O “plot” não é apenas a conquista da fazenda São Bernardo, mas o processo de erosão moral que acompanha essa ascensão. A narrativa é seca, desprovida de sentimentalismos, mimetizando a própria personalidade do protagonista: um homem que aprendeu que a única linguagem compreendida pelo mundo é a da força e do lucro.
A crítica ao poder em São Bernardo é sistêmica. Paulo Honório não é apenas um vilão; ele é a personificação de um modelo de desenvolvimento autoritário. Sua gestão da fazenda é um microcosmo do Estado autoritário, onde a ordem é mantida pela coerção e onde o diálogo é visto como fraqueza. O autoritarismo de Paulo transborda para suas relações pessoais, revelando que, no regime do capital agrário, não existe distinção entre a gestão de gado e a gestão de seres humanos.
A entrada de Madalena (Isabel Ribeiro) na vida de Paulo Honório estabelece o conflito central entre duas visões de mundo. Enquanto Paulo representa a luta de classes em sua forma mais crua; o opressor que nega a humanidade do oprimido para justificar a exploração; Madalena por sua vez representa a conscientização.
Como professora, ela acredita na educação e na dignidade, elementos que Paulo considera “perigosos” ou “inúteis”. Para o fazendeiro, a alfabetização e a saúde dos trabalhadores são custos que reduzem a margem de lucro; para Madalena, são direitos fundamentais. A educação, no filme, é apresentada como a única ferramenta capaz de romper o ciclo de embrutecimento, e é precisamente por isso que Paulo tenta sufocá-la.
A relação matrimonial é o palco onde a crítica ao patriarcalismo atinge seu ápice. Paulo Honório não “ama” Madalena no sentido afetivo; ele a “adquire” como um ativo valioso para sua fazenda — uma mulher instruída que daria um herdeiro à altura de sua propriedade.
O ciúme não nasce do amor, mas do sentido de posse.E o controle é representado pela incapacidade de Paulo em dominar os pensamentos. A moral de Madalena o leva ao desespero, resultando em uma opressão psicológica que culmina na tragédia.
Madalena é a voz da resistência ética que prefere a aniquilação à submissão total ao sistema patriarcal e autoritário do marido.
Ao final, São Bernardo é uma reflexão amarga sobre a relação entre o indivíduo e a sociedade. Leon Hirszman utiliza planos estáticos e uma fotografia árida para mostrar que Paulo Honório, ao conquistar tudo, tornou-se nada. Ele é um homem “vencido pela vitória”. A busca por identidade e dignidade através do acúmulo material revela-se uma ilusão: o protagonista termina cercado por paredes frias, fantasmas e a constatação de que sua vida foi um desperdício de humanidade.
A obra permanece atual por denunciar que o progresso que não inclui a dignidade humana e a justiça social é, em última análise, uma forma de barbárie.

Ficha Técnica de São Bernardo (1972)

  • Título Original: São Bernardo
  • Direção: Leon Hirszman
  • Roteiro: Leon Hirszman, baseado no romance de Graciliano Ramos
  • Elenco:
  • Othon Bastos como Paulo Honório.
  • Isabel Ribeiro como Madalena.
  • Nildo Parente como Padilha.
  • Vanda Lacerda como Dona Glória.
  • Mário Lago como Nogueira.
  • Jofre Soares como Padre Brito.
  • Rodolfo Arena como Dr. Magalhães.
  • Joseph Guerreiro como Gondim.
  • Gênero: Drama
  • Duração: 110 minutos
  • País de Origem: Brasil
  • Idioma: Português
  • Orçamento: não disponível
  • Estreia: 1972 (Brasil)

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