Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1955, Rio, 40 Graus não é apenas um filme; é o marco fundador do cinema moderno no Brasil. Sob a direção visionária de Nelson Pereira dos Santos, a obra rompeu com a estética artificial das chanchadas e dos dramas de estúdio da época para inaugurar uma linguagem pautada na realidade nua e crua das ruas. Ao transpor para as telas a temperatura febril de uma metrópole em contradição, o filme tornou-se o precursor direto do Cinema Novo, estabelecendo o compromisso do cineasta com a justiça social.
A narrativa se organiza de forma tradicional, acompanhando um domingo ensolarado no Rio de Janeiro. O fio condutor são cinco meninos amendoineiros que descem do Morro do Cabuçu para trabalhar em pontos turísticos icônicos, como o Maracanã e o Pão de Açúcar. Essa escolha de roteiro permite que a câmera de Nelson Pereira dos Santos funcione como um observador participante, costurando subtramas que envolvem desde o drama de um jogador de futebol em ascensão até as tensões de uma classe média alienada. O “plot” não busca o clímax tradicional, mas sim a exposição das micro-histórias que compõem a vida urbana.
A estética do filme bebe diretamente na fonte do Neorrealismo Italiano, mas com uma tradução tipicamente brasileira. A influência manifesta-se no uso de atores não profissionais, na preferência por locações reais em vez de cenários montados e na luz natural que banha a cidade. Mais do que uma escolha técnica, essa abordagem foi uma ferramenta política para buscar a identidade nacional, conferindo dignidade e protagonismo a figuras históricas que o cinema anterior preferia esconder ou caricaturar.
Diferente das representações contemporâneas que focam excessivamente na violência, o filme retrata as comunidades como um espaço de resistência e humanidade. Nelson Pereira dos Santos destaca os laços comunitários e a cultura popular como alicerces da sobrevivência. A música, especialmente o samba “A Voz do Morro” de Zé Keti, atua como o coração pulsante do filme, elevando a cultura do morro ao status de alma da identidade carioca. A dignidade dos personagens reside na sua capacidade de manter a alegria e a solidariedade, apesar da precariedade material.
O filme é uma denúncia contundente do racismo estrutural e da desigualdade brasileira. Ao colocar os meninos negros circulando por espaços de elite e turismo, o diretor expõe a invisibilidade social e a exploração. A cidade do Rio de Janeiro é apresentada como um organismo dividido: de um lado, o lazer exuberante dos turistas e da burguesia; do outro, o esforço hercúleo das crianças para garantir o sustento. A crítica ao turismo é implícita, revelando que os cartões-postais da cidade são construídos sobre a exclusão daqueles que nela habitam.
A importância histórica de Rio, 40 Graus também é marcada pelo seu embate com o poder. O filme foi inicialmente proibido pela censura policial, sob a alegação absurda de que o Rio não atingia temperaturas tão altas, mas o medo real era a exposição da pobreza e da injustiça. A vitória sobre a proibição não apenas permitiu a exibição da obra, mas validou o cinema como uma ferramenta de reflexão crítica e transformação social.
Ficha Técnica de Rio 40 Graus (1955)
- Título Original: Rio 40 Graus
- Direção: Nelson Pereira dos Santos
- Roteiro: Nelson Pereira dos Santos, Arnaldo Grimberg e Álvaro Apocalypse
- Elenco:
- Roberto Batalin como Pedro
- Glória Menezes como Sônia
- Jece Valadão como Miguel
- Ana Beatriz como Maria Helena
- Modesto De Souza
- Cláudia Moreno
- Zé Kéti
- Sônia Cláudia
- Gênero: Drama
- Duração: 100 minutos
- País de Origem: Brasil
- Idioma: Português
- Orçamento: não disponível
- Estreia: 1955 (Brasil)
- Distribuidora: Equipe Produções Cinematográficas
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Muito bom.
Parabéns pelo Artigo.