Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1962 e dirigido por Roberto Farias, O Assalto ao Trem Pagador é um marco do cinema brasileiro que transcende o gênero policial para se tornar um tratado sociológico sobre o Brasil pré-ditadura. Baseado no crime real ocorrido em Japeri (RJ) em 1960, o filme utiliza o roubo como pretexto para radiografar as vísceras da desigualdade e do preconceito racial.
A trama acompanha o bando liderado por Tião Medonho, um morador de comunidade que comanda o assalto a um vultoso carregamento de dinheiro. O conflito central, contudo, não reside na execução do crime — filmada com um dinamismo técnico impressionante para a época — mas no conflito ético e social que se segue. Ao estabelecer a regra de que ninguém deve gastar mais do que o habitual para não despertar suspeitas, o roteiro evidencia o drama dos personagens: a posse da riqueza não lhes garante a entrada na sociedade de consumo, pois a cor de sua pele e sua origem geográfica os condenam à suspeição eterna.
O filme estabelece uma distinção clara entre o que é legal e o que é justo. Enquanto o Estado mobiliza um aparato repressivo violento para reaver o capital, Roberto Farias questiona a justiça de um sistema que só se faz presente na periferia através do braço armado. A crítica ao sistema de justiça é contundente: a tortura e a intimidação são utilizadas como ferramentas padrão, revelando que, para o sistema, o crime de um indivíduo oriundo das classes menos favorecidas, é uma afronta à ordem social que exige uma punição exemplar, independentemente dos direitos individuais.
A busca por liberdade e dignidade é o motor de Tião Medonho. Para ele, o assalto não é apenas uma busca por luxo, mas um grito contra a invisibilidade. No entanto, o filme revela que o racismo estrutural é uma barreira intransponível; mesmo com os bolsos cheios, os personagens negros permanecem marginalizados. A “justiça” que eles buscam é a da sobrevivência, mas a narrativa demonstra que a solidariedade inicial do grupo é corroída pela ganância e pela traição, muitas vezes incentivada pela própria estrutura policial que joga uns contra os outros.
O Assalto ao Trem Pagador conclui que o crime é um sintoma de uma patologia social mais profunda. A obra de Farias antecipa elementos do Cinema Novo, ao mostrar o povo como protagonista de sua própria tragédia. Ao final, a derrota do bando não é apenas uma vitória da lei, mas a reafirmação de um ciclo de exclusão onde a dignidade humana é negada àqueles que o sistema escolheu esquecer.
Ficha Técnica de Assalto ao Trem Pagador (1962)
- Título Original: Assalto ao Trem Pagador
- Direção: Roberto Farias
- Roteiro: Roberto Farias e Paulo César Saraceni
- Elenco:
- Reginaldo Faria – Grilo Peru
- Grande Otelo – Cachaça
- Eliezer Gomes – Tião Medonho
- Jorge Dória – delegado
- Ruth de Souza – Judith
- Luíza Maranhão – Zulmira
- Miguel Ângelo – Miguel “Gordinho”
- Helena Ignez – Marta
- Átila Iório – Tonho
- Miguel Rosenberg – Edgar
- Dirce Migliaccio – mulher de Edgar
- Clementino Kelé – Lino
- Gênero: Drama, Crime
- Duração: 100 minutos
- País de Origem: Brasil
- Idioma: Português
- Estreia: 1962 (Brasil)
- Distribuidora: Herbert Richers
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Parabéns pelo Artigo.