Análise do Filme: A Falecida (1965)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

O filme “A Falecida” (1965), dirigido por Leon Hirszman, é uma das obras mais emblemáticas do Cinema Novo, marcando a estreia de Fernanda Montenegro no cinema. Ao adaptar a peça de Nelson Rodrigues, Hirszman distanciou-se do humor ácido e do misticismo do escritor para abraçar um realismo cru e uma análise marxista das condições sociais brasileiras.
A trama centra-se em Zulmira, uma mulher da classe média baixa que vive em um subúrbio cinzento do Rio de Janeiro. Convencida de que morrerá de tuberculose, ela transforma sua existência em um ensaio para o próprio fim. Sua única vontade é um funeral de luxo, como forma de vingança contra a vizinha e prima Glorinha, que a invejaria até no túmulo. Zulmira instrui seu marido, o alienado e desempregado Tonico, a procurar um rico desconhecido, João Guimarães Pimentel, para financiar o evento.
Para Zulmira, a morte não representa o fim, mas a única possibilidade de dignidade e espetáculo que a vida lhe negou. O filme retrata o cotidiano suburbano como algo morto e repetitivo; simbolizado por dias nublados e cenários em decomposição. A vida da protagonista só adquire movimento e propósito através do planejamento minucioso do seu óbito, invertendo a lógica existencial: ela precisa morrer para ser, finalmente, notada.
Leon Hirszman utiliza a história para expor a alienação das classes populares. A pobreza é mostrada não apenas na escassez de recursos de Tonico, que prefere gastar o pouco que tem com o seu time de futebol; mas na aspiração de Zulmira aos valores da sociedade burguesa. Ela busca na estética do funeral uma “ascensão social” póstuma, revelando como o sistema molda os desejos dos oprimidos à imagem e semelhança dos opressores.
O filme é marcado por um vazio afetivo profundo. Não há compaixão genuína entre o casal; a relação é de mútua incompreensão e segredos. A revelação final, na qual o financiador do funeral era, na verdade, ex-amante de Zulmira, exclui qualquer vestígio de piedade. Tonico, em vez de honrar o último desejo da esposa, utiliza o dinheiro para benefício próprio, demonstrando que a mesquinhez e a vingança sobrepõem-se à solidariedade naquelas relações mediadas pela frustração.
O desfecho de “A Falecida” é uma das críticas mais amargas do cinema nacional. O esforço de Zulmira para ser respeitada através de um ritual aristocrático é sabotado pela realidade medíocre que a cercava. Ao final, Hirszman reafirma que, em uma sociedade estruturalmente desigual, até o último suspiro de resistência e busca por dignidade pode ser mercantilizado ou traído pela hipocrisia e pela miséria humana.

Ficha Técnica de A Falecida (1965)

  • Título Original: A Falecida
  • Direção: Leon Hirszman
  • Roteiro: Leon Hirszman, baseado na peça de teatro de Nelson Rodrigues
  • Elenco
  • Fernanda Montenegro – Zulmira
  • Paulo Gracindo – João Guimarães Pimentel
  • Ivan Cândido – Toninho
  • Nelson Xavier – Timbira
  • Joel Barcellos
  • Dinorah Brillanti
  • Hugo Carvana
  • Lucy Costa
  • Eduardo Coutinho
  • Billy Davis
  • Oswaldo Ferreira
  • Lurdes Freitas
  • Zé Keti
  • Vanda Lacerda – Madame Crisálida
  • Glória Ladany
  • Gênero: Drama
  • Duração: 85 minutos
  • País de Origem: Brasil
  • Idioma: Português
  • Estreia: 1965 (Brasil)
  • Distribuidora: Difilm

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