Análise do Filme: Cangaceiro” (1953)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

O lançamento de O Cangaceiro (1953), dirigido por Lima Barreto, representa um divisor de águas na história do cinema brasileiro. Produzido pelos estúdios da Companhia Vera Cruz, o filme não apenas conquistou o reconhecimento internacional no Festival de Cannes, como também estabeleceu uma iconografia visual e sonora que perdura até hoje. Através de uma narrativa que funde o rigor técnico europeu com a temática visceral do Nordeste, a obra transcende a aventura para se tornar um estudo profundo sobre a condição humana e as contradições sociais do Brasil.
A trama estrutura-se sobre a dualidade personificada em dois personagens centrais: Capitão Galdino, o líder tirânico e cruel, e Teodoro, seu braço direito, cuja consciência desperta ao longo da história. O motor da narrativa é o sequestro da professora Olivia. Enquanto Galdino vê nela apenas um objeto de barganha e prazer, Teodoro enxerga a possibilidade de uma vida pautada por outros valores. A fuga do casal transforma o filme em um road movie trágico, onde o destino final não é a liberdade, mas a inevitabilidade do sacrifício em nome de um ideal ético.
Lima Barreto foi frequentemente criticado por “americanizar” o cangaço ao utilizar a gramática visual do Western. No entanto, essa escolha foi estratégica para universalizar o tema. O cangaceiro de 1953 é retratado dentro de uma narrativa clássica, mas profundamente enraizado na realidade brasileira. A trilha sonora, que imortalizou a canção “Mulher Rendeira”, funciona como “Tema” que pontua as ações do bando, conferindo um caráter místico e folclórico à violência dos homens que vivem à margem da lei.
A relação entre o homem e a natureza em O Cangaceiro é de simbiose brutal. A fotografia em alto contraste de Chick Fowle não apenas registra o cenário, mas o interpreta: a Caatinga é um espaço de hostilidade onde a vegetação espinhosa e o sol implacável moldam homens de espírito endurecido. Nesse contexto, a violência não é um desvio, mas a norma de sobrevivência. A morte é encarada com um fatalismo estóico; ela é a única conclusão lógica para aqueles que escolheram o caminho das armas. O sertão, portanto, é apresentado como um território onde a lei da natureza sobrepõe-se à lei dos homens.
O filme explora minuciosamente o código de honra do cangaço. A lealdade ao bando é o valor supremo, e a traição de Teodoro é o pecado original que move a perseguição final.A traição de Teodoro é, na verdade, sua redenção. Ele rompe com a coletividade violenta do bando para afirmar sua individualidade e compaixão, transformando-se em um mártir da moralidade em um mundo amoral.
Por trás da ação épica, se esconde uma crítica contundente à estrutura social brasileira. A presença da professora Olivia — símbolo da educação e da civilização — em meio ao bando de Galdino evidencia o abismo entre o Brasil litorâneo/letrado e o Brasil profundo. O filme sugere que o cangaço é um sintoma da ausência do Estado; no vácuo de uma justiça institucional, impera a justiça privada e o messianismo de figuras autoritárias. O Cangaceiro denuncia, assim, uma sociedade fraturada, onde o progresso é frequentemente sufocado pela herança histórica da violência latifundiária.
Em suma, a obra de Lima Barreto permanece atual por não oferecer soluções simplistas. Ao equilibrar o espetáculo cinematográfico com a densidade temática, O Cangaceiro consolidou-se como um retrato melancólico e potente de um país que ainda busca conciliar sua natureza selvagem com seus anseios de justiça e civilidade.

Ficha Técnica de O Cangaceiro (1953)

  • Título Original: O Cangaceiro
  • Direção: Lima Barreto
  • Roteiro: Lima Barreto e Rachel de Queiroz
  • Elenco:
  • Alberto Ruschel – Teodoro
  • Marisa Prado – Olívia
  • Milton Ribeiro – Galdino
  • Vanja Orico – Maria Clódia
  • Adoniran Barbosa – Mané Mole
  • Lima Barreto
  • Zé do Norte
  • Antônio Coelho
  • Nieta Junqueira
  • Gênero: Aventura, Drama
  • Duração: 105 minutos
  • País de Origem: Brasil
  • Idioma: Português
  • Estreia: 1953 (Brasil)
  • Distribuidora: Cinedistri
  • Prêmios: Prêmio de Melhor Filme no Festival de Cannes (1953)

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