Análise do Filme: Barravento (1962)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1962, Barravento não é apenas a estreia de Glauber Rocha na direção de longas-metragens; é o grito primordial do Cinema Novo. Ambientado em uma comunidade de pescadores na Ilha de Itaparica, Bahia, o filme utiliza a estética do preto e branco para esculpir uma realidade onde o misticismo e a exploração econômica caminham lado a lado.
A trama se desenvolve a partir do retorno de Firmino à aldeia após anos em Salvador. Firmino traz consigo a “cidade” — a malandragem, a descrença e, acima de tudo, a consciência de classe. Ele encontra um povo submisso, cuja vida é ditada pelas leis do Candomblé e pela rede de pesca de um mestre explorador. O plot central reside no esforço de Firmino em desmistificar as crenças locais, que ele vê como correntes que impedem o povo de enxergar sua própria miséria. Ele busca provocar o “barravento” — a mudança brusca de tempo — não no mar, mas na mente dos pescadores.
A luta pela sobrevivência é retratada na crueza do trabalho manual. A fome é uma presença silenciosa, e a vida depende da generosidade incerta do mar. Aqui, a relação entre o homem e a natureza assume um caráter duplo: o mar é, ao mesmo tempo, o provedor de sustento e o altar de Iemanjá. A natureza não é um cenário passivo; ela é um agente político e espiritual que pune ou recompensa, moldando o destino daqueles que não possuem nada além da força de seus braços.
Glauber Rocha mergulha profundamente na cultura popular, elevando o Candomblé, a capoeira e o samba de roda a elementos de linguagem cinematográfica. Entretanto, o diretor trata a religiosidade com ambiguidade. Ao mesmo tempo em que a reconhece como o pilar da identidade nacional e da resistência cultural negra, ele a critica quando esta se torna uma ferramenta de alienação. Para o diretor, o misticismo muitas vezes justifica a exploração, fazendo o pescador aceitar a pobreza como uma vontade divina, em vez de um arranjo social injusto.
A opressão em Barravento é variada. Há a opressão econômica (o dono da rede que fica com o lucro), a opressão social (o isolamento da aldeia) e a opressão espiritual (o medo do castigo dos orixás). A resistência surge no confronto. Firmino usa a violência simbólica — como a profanação de espaços sagrados ou o incentivo ao desejo sexual proibido — para provar que os deuses não intervirão, tentando forçar o povo a assumir o controle de suas próprias vidas.
Em última análise, Barravento é um estudo sobre a formação da alma brasileira. Ao retratar a transição entre o pensamento místico e a ação revolucionária, Glauber Rocha estabelece as bases da “Estética da Fome”. O filme conclui que a verdadeira libertação do homem brasileiro só ocorreria quando ele conseguisse conciliar sua rica herança cultural com a necessidade urgente de transformar sua realidade material.

Ficha Técnica de Barravento (1962)

  • Título Original: Barravento
  • Direção: Glauber Rocha
  • Roteiro: Glauber Rocha e José Joffily
  • Elenco:
  • Antonio Pitanga – Firmino
  • Luíza Maranhão – Cota
  • Lucy Carvalho – Naína
  • Aldo Teixeira – Aruã
  • Lidio Silva – Mestre
  • Gênero: Drama
  • Duração: 80 minutos
  • País de Origem: Brasil
  • Idioma: Português
  • Estreia: 1962 (Brasil)
  • Distribuidora: Difilm

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