Análise do filme: “Madame Satã” (2002)

Critica de Filmes

“Madame Satã” (2002) é o primeiro filme dirigido pelo cineasta Karim Ainouz (“A Vida Invisível”, “O Céu de Suely”) e, também, o primeiro filme do ator baiano Lázaro Ramos como protagonista.

Nesta produção franco-brasileira, ele interpreta um personagem excêntrico em uma fita que prima pelo clima onírico, ressaltado pela fotografia do premiado cinegrafista Walter Carvalho. Aliás, a fotografia de Carvalho chega a ser extravagante e é um espetáculo à parte. Ele abusa das cores saturadas e dos close ups para reforçar a narrativa numa abordagem um tanto delirante. A maquiagem e os figurinos também merecem destaque.

Personagem

A obra é uma cinebiografia de João Francisco dos Santos (1900-1976), personagem boêmio da Lapa carioca. Ele protagonizou inúmeras histórias que ficaram famosas por todo o Brasil.

Natural de Glória do Goitá, no Agreste Pernambucano, João Francisco ficou órfão de pai muito cedo e a mãe trocou-o por uma égua. Na fazenda do comerciante de cavalos, ele viveu em regime de semiescravidão até sua fuga. Foi a primeira de muitas em sua vida.

O apelido “Madame Satã” surgiu após um concurso de fantasias de carnaval do então famoso bloco “Caçadores de Veados”. João Francisco venceu fantasiado de um morcego típico de sua terra natal.

Depois do concurso, houve uma confusão e todos foram levados à delegacia. Como João Francisco se negasse a dar o seu nome ao delegado, este o apelidou de “Madame Satã”, comparando sua fantasia com o personagem do filme “Madam Satan” (1930) de Cecil B. De Mille, que tinha estreado há pouco. Esta foi uma comédia musical realizada antes do famoso Código Hays, que mostra um extravagante baile de fantasias.

Malandro, capoeirista e habilidoso com a navalha, “Madame Satã” era também um artista transformista (ou drag queen, como diríamos hoje), homossexual assumido e protetor das prostitutas do bairro.

Foi preso inúmeras vezes no presídio da Ilha Grande. A primeira por atirar num vigia que o xingava. Depois disso, foi alvo de perseguição policial, bateu e foi surrado por vários policiais. Por esses motivos, tornou-se uma espécie de lenda respeitada entre os detentos da Ilha Grande.

Aos 70 anos, Madame Satã voltou à mídia por meio da icônica entrevista realizada por Jaguar e outros comentaristas em O Pasquim, célebre jornal carioca alternativo, publicada em 29 de abril de 1971. Nesta entrevista, ele refere-se a si mesmo como o “homossexual mais macho da história do Rio de Janeiro desde 1907”.

Ele também apareceu no Programa Flavio Cavalcanti nos anos 1970, quando deu uma entrevista sobre sua vida de artista. Foi uma entrevista marcante que solidificou o personagem na cultura brasileira.

Prêmios

“Madame Satã” foi considerado um dos 100 melhores filmes brasileiros pela Abraccine em 2015. Mas essa não foi a primeira fita baseada no personagem. O filme “A Rainha Diaba” (1974) foi livremente inspirado na vida do artista e marginal, com Milton Gonçalves no papel principal. O filme foi dirigido por Antônio Carlos Fontoura, com roteiro de Plínio Marcos.

Mas é em “Madame Satã” que surge a estrela Lázaro Ramos, numa interpretação corajosa e reconhecida, com apenas 24 anos.

Lázaro recebeu o prêmio de melhor ator e Marcélia Cartaxo de melhor atriz no Grande Prêmio Brasileiro de Cinema (2003). Ele também foi premiado como melhor ator pela Associação Paulista de Críticos de Arte – APCA – em 2003, e recebeu o Prêmio Guarani no mesmo ano.

Entre os vários prêmios internacionais, destacam-se: Melhor ator e Melhor Fotografia no Festival de Lima (2003). O filme também venceu o Colombo de Ouro de Melhor Filme no Festival Ibero Americano de Huelva (2002) e o Colombo de Prata de Melhor Fotografia.    

Elenco

Vale salientar a presença da sempre excelente Marcélia Cartaxo como a prostituta Laurita, Flavio Bauraqui como o amigo Tabu e Renata Sorrah como Vitoria.

O elenco também conta com Gero Camilo como Agapito, Floriano Peixoto como Gregório, Ricardo Blat como o vigia José, Fellipe Marques como Renatinho e Marcelo Valle como o delegado.

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