Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1969, no auge da repressão política no Brasil, “O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” (também conhecido mundialmente como Antônio das Mortes) é o testamento estético de Glauber Rocha. Vencedor do prêmio de Melhor Direção em Cannes, o filme não apenas encerra a trilogia do sertão do cineasta, mas transforma a realidade árida do Nordeste em uma ópera mítica, onde a política e o folclore se fundem para denunciar as estruturas de poder que definem a identidade brasileira.
A narrativa retoma a figura de Antônio das Mortes, o matador de cangaceiros introduzido em Deus e o Diabo na Terra do Sol. Contratado pelo Coronel Horácio — um latifundiário cego que simboliza a elite caduca e insensível — para eliminar o cangaceiro Coirana e o Beato que lideram uma massa de famintos em Jardim de Piranhas, Antônio vive uma epifania. Ao derrotar Coirana em um duelo ritualístico, ele percebe que sua espada serve ao “dragão” (o latifúndio) e não ao “santo” (o povo). Sua jornada deixa de ser a de um mercenário para se tornar a de um justiceiro metafísico, culminando em um massacre purificador contra as forças da opressão.
Glauber subverte o dualismo tradicional. O “Bem” e o “Mal” não são categorias morais estáticas, mas forças históricas. O Dragão é a estrutura socioeconômica: o Coronel, o delegado corrupto e o intelectual alienado. O Santo Guerreiro é o braço armado que desperta. O filme sugere que o mal absoluto reside na fome e na exploração, e que a violência do oprimido é, na verdade, um ato de legítima defesa e libertação espiritual.
A religião é apresentada como uma faca de dois gumes. Por um lado, o Beato representa o misticismo que conforta, mas que também passiviza o povo diante da miséria. Por outro, o Padre da cidade simboliza a cumplicidade histórica da Igreja com as elites agrárias. A obra defende que a verdadeira “santidade” só é alcançada quando o povo abandona a espera passiva pelo milagre e assume o protagonismo da luta de classes. A união entre o misticismo popular e a revolta armada de Coirana é o que apavora o poder estabelecido, pois retira das massas o medo da morte.
Em relação estética do filme, Glauber rompe com o naturalismo para criar uma linguagem puramente brasileira:
O uso do Technicolor satura o sertão com tons de vermelho e roxo, evocando o sangue e a liturgia religiosa.
A narrativa é pontuada por canções que explicam a trama, transformando o filme em um folheto de cordel filmado.
Os duelos não são realistas; são danças rituais onde os corpos se movem em um tempo dilatado, reforçando o caráter lendário dos personagens.
Esse estado de selvageria consciente é a resposta de Glauber à colonização cultural. Ele utiliza o barroco brasileiro para criar uma identidade que é, ao mesmo tempo, arcaica e revolucionária, provando que o sertão é o mundo.
“O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro” permanece como uma obra fundamental para compreender as feridas abertas da América Latina. Ao final, quando Antônio das Mortes caminha por uma estrada moderna ladeada por caminhões, Glauber nos avisa: a luta contra o dragão da opressão não terminou no século XIX; ela se renova a cada ciclo de desigualdade, exigindo que o cinema seja, acima de tudo, uma ferramenta de desalienação e confronto.
Ficha Técnica de O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro (1969)
- Título Original: O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro
- Direção: Glauber Rocha
- Roteiro: Glauber Rocha
- Elenco:
- Maurício do Valle – Antônio das Mortes
- Odete Lara – Laura
- Othon Bastos – Professor
- Hugo Carvana – Mattos
- Jofre Soares -:Coronel Horácio
- Lorival Pariz – Coirana
- Rosa Maria Penna – Santa Bárbara
- Emmanuel Cavalcanti – Padre
- Vinícius Salvatori – Mata Vaca
- Santi Scaldaferri – Batista
- Mário Gusmão – Antão
- Conceição Senna – Madalena
- Gênero: Drama, Aventura
- Duração: 95 minutos
- País de Origem: Brasil
- Idioma: Português
- Estreia: 1969 (Brasil)
- Distribuidora: Mapa Filmes
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Parabéns pelo artigo.