Análise do filme “Piranha 3D” (2010)

Critica de Filmes

Direção: Alexandre Aja

Elenco: Elisabeth Shue, Adam Scott, Jessica Szohr, Jerry O’Connell, Ving Rhames, Steven R. Kramer, Riley Steele, Christopher Lloyd, Richard Dreyfuss, Kelly Brook, Dina Meyer, Sasha Grey

Um filme B com orçamento A, projetado para chocar e entreter na mesma medida

Em uma era de remakes hollywoodianos que frequentemente diluem o encanto dos originais, “Piranha 3D”, dirigido pelo francês Alexandre Aja; conhecido por sua abordagem visceral em filmes como “Alta Tensão” (2003) e o remake de “Viagem Maldita” (2006), surge como uma reimaginação sangrenta e escrachada do clássico cult “Piranhas” (1978), de Joe Dante. Lançado em 2010, o filme abraça o exploitation com unhas e dentes (literalmente), transformando uma premissa simples em um espetáculo de caos aquático que mistura gore extremo, apelo sexual explícito e humor de gosto questionável. Não é uma obra-prima do terror, mas para quem busca diversão trash sem maiores pretensões, é um prato cheio. Um guilty pleasure que sabe exatamente o que é: um filme B com orçamento A, projetado para chocar e entreter na mesma medida.

A trama se desenrola no pacato Lago Victoria, Arizona, onde um tremor geológico abre uma fenda no fundo do lago, liberando um reservatório subterrâneo a muito tempo selado. Dele emergem piranhas pré-históricas, uma espécie extinta e voraz, que invadem as águas cristalinas justamente durante o feriado de primavera que atrai centenas de jovens para festas regadas a álcool, biquínis e atividades aquáticas. Cabe à xerife Julie Forester (Elisabeth Shue, em um papel que emula a determinação de heroínas clássicas do terror), seu filho adolescente Jake (Steven R. McQueen) e uma equipe improvisada, incluindo o hilário Ving Rhames como um deputado armado até os dentes, evitar que o paraíso vire uma tragédia. O filme abre com uma sequência icônica: um pescador solitário (Richard Dreyfuss, em uma participação especial) é devorado vivo, uma clara homenagem a “Tubarão” (1975), de Steven Spielberg, onde Dreyfuss interpretou o oceanógrafo Matt Hooper. Essa cena reverente não só conecta “Piranha 3D” à era dourada dos monster movies dos anos 70, mas também sinaliza o tom: um pastiche de Jaws com toques de sátira e exagero.

O roteiro, assinado por Pete Goldfinger e Josh Stolberg, atualiza o contexto do original de Dante para os anos 2010, trocando o tom campy  por um enfoque mais contemporâneo em festas universitárias. No entanto, ele não escapa dos clichês inerentes ao subgênero: personagens arquétipos como o adolescente rebelde, a mãe protetora e o produtor de vídeos pornográficos oportunista (Jerry O’Connell, em uma performance over-the-top); decisões estúpidas que desafiam a lógica, como ignorar alertas óbvios de perigo; e até o clássico “motor falhando na hora H” durante fugas desesperadas. Esses clichês, embora previsíveis, servem ao propósito de impulsionar o caos, mas revelam uma certa preguiça narrativa. O que realmente compromete a imersão é a falta de tensão genuína, ao contrário de “Tubarão”, que constrói suspense com maestria, “Piranha 3D” opta por ataques rápidos e constantes, sem criar um clima de apreensão ou nervosismo prolongado. Os efeitos CGI, otimizados para o 3D (o filme foi lançado na era pós-“Avatar”, quando a tecnologia estava em alta), parecem toscos e datados quando vistos em 2D, com peixes digitais que lembram mais animações de videogame do que ameaças reais.

Por outro lado, o filme brilha nos elementos que Aja domina: o gore é abundante e impressionante, cortesia da equipe de efeitos especiais liderada por Greg Nicotero (de “The Walking Dead”), que entrega cenas de violência gráfica com um realismo avassalador; membros decepados, corpos dilacerados e rios de sangue que transformam o lago praticamente em um matadouro aquático. A sequência do massacre durante a festa de Spring Break é inesquecível, um mar de corpos flutuantes e gritos que evoca o melhor do horror exploitation dos anos 80. Aja não poupa no apelo sexual, explorando-o de forma intensa e ousada: close-ups em corpos seminus, cenas picantes que flerta com o softcore, culminando em momentos como a infame “dança subaquática” que mistura erotismo e horror de forma grotesca. O humor negro permeia tudo, desde diálogos sarcásticos até piadas visuais de gosto duvidoso, pense em piadas com genitálias decepadas, adicionando uma camada de irreverência que alivia a brutalidade.

Comparado ao original de Joe Dante, que era uma sátira leve e bem-humorada aos acertos de “Tubarão” com toques de crítica ambiental, o remake de Aja amplifica o trash: menos sutileza, mais excesso, priorizando o gore sobre o comentário social. Ainda assim, ele mantém o espírito B-movie, com participações especiais divertidas (como Christopher Lloyd como um excêntrico cientista) e uma energia contagiante que faz o filme voar em seus curtos 88 minutos.

“Piranha 3D” certamente não é para todos, quem busca terror psicológico ou narrativas sofisticadas sairá decepcionado. Mas para fãs de filmes onde o sangue jorra com gosto, o politicamente incorreto reina e a diversão vem sem filtros, é um ótimo entretenimento. Em um gênero saturado de jumpscares baratos, Aja entrega um banquete visual que, apesar das falhas, deixa uma marca sangrenta.

Enjoy it!

Loading

Compartilhe nosso artigo

1 thought on “Análise do filme “Piranha 3D” (2010)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *