Análise do Filme: A Margem (1967)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1967, o filme “A Margem”, dirigido por Ozualdo Candeias, é considerado o marco inaugural do Cinema Marginal no Brasil. Produzido com recursos escassos na região da Boca do Lixo, em São Paulo, a obra rompe com a didática política do Cinema Novo para oferecer um mergulho visceral na exclusão social e existencial.
A narrativa de “A Margem” afasta-se da estrutura linear clássica, adotando um estilo episódico e circular. O filme acompanha quatro personagens — dois homens e duas mulheres — que habitam as margens poluídas do Rio Tietê. Não há uma progressão em direção a um clímax de redenção; em vez disso, a câmera assiste à morte lenta e agonizante de cada um, culminando em uma jornada final simbólica em uma canoa. É uma história sobre a inércia e a inevitabilidade do fim.
Diferente de outros movimentos que viam a pobreza como um trampolim para a revolução, Candeias a apresenta como uma marginalidade absoluta. Os personagens são “abandonados” da sociedade urbana, vivendo em um estado de desfiliação onde o lixo e o abandono não são apenas o cenário, mas a própria essência de suas vidas. Eles existem em um vácuo social, ignorados pelo progresso da metrópole que cresce ao fundo.
As relações interpessoais no filme são marcadas pelo silêncio e pela alienação. A comunicação é precária ou inexistente; o afeto é substituído por uma convivência apática mediada pela miséria. As interações, muitas vezes centradas em figuras como prostitutas e homens errantes, revelam uma solidão profunda, onde o outro é apenas um espelho da própria desilusão.
A luta pela vida em “A Margem” é desprovida de finalidade. Os personagens não buscam mudar o mundo, mas apenas atravessar o dia. A crítica à sociedade reside justamente na exposição dessa vida nua, reduzida à sobrevivência biológica básica em meio à repressão política e ao descaso social da época. O filme denuncia uma sociedade que produz “sobras” humanas incapazes de sequer articular sua própria revolta.
A estética da obra é definida pela precariedade como linguagem. Candeias realiza uma produção de baixo orçamento e improviso, Cenários reais e iluminação natural.
A trilha sonora sofisticada do Zimbo Trio contrasta ironicamente com as imagens cruas e sujas, enfatizando o abismo entre a arte instituída e a realidade das margens.
O uso de câmeras subjetivas que parecem personificar a própria morte, vigiando os personagens até seu fim inelutável.
O filme permanece como um testamento poético e brutal sobre aqueles que vivem à margem da vida e, inevitavelmente, à margem da morte.

Ficha Técnica de A Margem (1967)

  • Título Original: A Margem
  • Direção: Ozualdo Candeias
  • Roteiro: Ozualdo Candeias
  • Elenco:
  • Valeria Vidal,
  • Bentinho,
  • Lucy Rangel,
  • Mário Benvenutti
  • Gênero: Drama
  • Duração: 90 minutos
  • País de Origem: Brasil
  • Idioma: Português
  • Estreia: 1967 (Brasil)

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