Análise do Filme: Jardim de Guerra (1968)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Produzido em 1968 e lançado em 1972, o longa-metragem Jardim de Guerra, dirigido por Neville d’Almeida, é um dos pilares do Cinema Marginal brasileiro. A obra transcende a mera narrativa cinematográfica para se tornar um manifesto estético e político, sendo um dos filmes mais censurados da Ditadura Militar devido ao seu retrato visceral da repressão e da desilusão da juventude.
O enredo centra-se em Edson, um jovem que vive em um estado de letargia e falta de perspectivas até se apaixonar pela cineasta Maria do Rosário. Em busca de ascensão financeira para realizar seus sonhos, ele aceita transportar uma maleta misteriosa. No entanto, a trama sofre uma reviravolta brutal: Edson é capturado e levado para um centro de detenção isolado, onde sofre sessões contínuas de tortura. A narrativa abandona a lógica linear para mergulhar em um pesadelo, onde o protagonista nunca conhece a localização exata de seu confinamento ou a identidade de seus executores, espelhando a paranoia e a incerteza vividas por presos políticos durante o regime militar.
O filme captura a essência da contracultura do final dos anos 60 através da entrega total do protagonista ao prazer e ao desejo de liberdade. O espírito hippie é evocado não apenas pelo comportamento dos personagens, mas pelo choque entre esse idealismo libertário e a realidade violenta que os consome. A obra retrata a transição dolorosa de uma juventude que buscava “paz e amor” para uma geração que se viu esmagada pela repressão institucionalizada.
Diferente da visão idealizada da natureza, o “jardim” no título funciona como uma ironia amarga. A relação entre o homem e a natureza é pervertida pela presença da guerra ideológica; o espaço, que deveria ser de vida, torna-se um palco estéril de abusos. A crítica social é direta: Neville d’Almeida constrói uma distopia onde a identidade nacional foi sequestrada pela violência. O uso de cenários minimalistas e espaços totalmente brancos nas cenas de tortura serve para focar o espectador exclusivamente no sofrimento do corpo humano e na crueza da ação do Estado.
Esteticamente, Jardim de Guerra é um campo de provas para a experimentação:
O diretor utiliza a câmera na mão e quebras constantes da quarta parede, criando um híbrido entre o documental e a ficção surrealista.
O filme incorpora elementos da Pop Art e do design moderno, utilizando colagens e cores saturadas que contrastam com o vazio dos centros de tortura.
A trilha sonora não é apenas um acompanhamento, mas um elemento político que dialoga com o Tropicalismo, reforçando o clima de caos e desconstrução da cultura brasileira tradicional.
A obra de Neville d’Almeida permanece como um documento histórico essencial que, ao desafiar as formas clássicas de narrar, conseguiu registrar o trauma de uma época que muitos tentavam esconder.

Ficha Técnica de Jardim de Guerra (1968)

  • Título Original: Jardim de Guerra
  • Direção: Neville d’Almeida
  • Roteiro: Neville d’Almeida e Luiz Otávio Pimentel
  • Elenco:
  • Joel Barcelos
  • Maria do Rosário Nascimento e Silva
  • Vera Brahim
  • Carlos Guimas
  • Ezequiel Neves
  • Paulo Góes
  • Jorge Mautner
  • Geraldo Mayrink
  • Sérgio Chamoux
  • ‘Claudia de Castro
  • Guará Rodrigues
  • Gênero: Drama
  • Duração: 90 minutos
  • País de Origem: Brasil
  • Idioma: Portuguê
  • Estreia: 1972 (Brasil)

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