Análise do Filme: O Pátio (1959)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1959, o curta-metragem O Pátio não é apenas o cartão de visitas de Glauber Rocha, mas o marco zero de uma revolução estética que culminaria no Cinema Novo. Filmado no terraço de azulejos da Igreja da Vitória, em Salvador, o filme rompe com o naturalismo comercial da época para instaurar uma linguagem experimental, onde o espaço e o corpo humano dialogam em uma coreografia de tensões existenciais e políticas.
A narrativa de O Pátio recusa a estrutura tradicional de começo, meio e fim. O “enredo” limita-se a um casal (interpretado por Helena Ignez e Solon Barreto) que se movimenta sobre um piso quadriculado. Não há diálogos; a história é contada através da montagem rítmica e da interação física com o ambiente. O pátio funciona como um tabuleiro de xadrez gigante, onde os personagens parecem peças em um jogo de movimentos calculados e repetitivos, sugerindo um ciclo de isolamento e busca por conexão.
Diferente das obras posteriores de Glauber, que focariam na miséria explícita do sertão, em O Pátio a pobreza é manifestada pela economia de meios. O filme é um exemplo prático do “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça”. A “miséria urbana” aqui é simbolizada pela aridez do concreto e pela ausência de adornos, antecipando a Estética da Fome — a ideia de que o cinema brasileiro deveria assumir sua precariedade técnica como uma forma de protesto e autenticidade.
As relações humanas no filme são marcadas por um profundo distanciamento. Embora os corpos dos protagonistas cheguem a se tocar, a comunicação é fragmentada e carregada de uma angústia incomunicável. Esse tratamento antecipa um tema recorrente no Cinema Novo: a alienação do indivíduo diante de estruturas sociais ou morais rígidas (representadas pela geometria do chão). O casal simboliza uma juventude que tenta se encontrar, mas está presa a um espaço que dita seus movimentos.
O Pátio é um laboratório estético. Nele, Glauber Rocha integra influências do concretismo e da Nouvelle Vague francesa. A fotografia em alto contraste e a montagem que ignora a continuidade clássica servem para desestabilizar o espectador, forçando-o a uma participação ativa na interpretação da obra. O filme é “absoluto” em sua forma, utilizando a luz e a sombra para criar um drama visual que não depende de palavras para transmitir poder político e artístico.
Por fim, o curta representa a busca de Glauber por uma identidade cinematográfica brasileira. Ao rejeitar o modelo industrial de Hollywood, ele propõe um cinema que nasce da própria terra e do próprio contexto. O Pátio é o esforço inicial para criar uma imagem que não seja um reflexo colonizado, mas uma expressão autêntica das tensões do “Terceiro Mundo”. É o primeiro passo de um cineasta que transformaria a fome e a violência em arte revolucionária.

Ficha Técnica de O Pátio (1959)

  • Título Original: O Pátio
  • Direção: Glauber Rocha
  • Roteiro: Glauber Rocha
  • Elenco:
  • Solon Barreto
  • Helena Ignez
  • Gênero: Drama, Curta-Metragem
  • Duração: 11 minutos
  • País de Origem: Brasil
  • Idioma: Português
  • Estreia: 1959 (Brasil)

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