Análise do Filme: Pacto de Sangue (1944)

Critica de Filmes

Marcelo Kricheldorf

Lançado em 1944, Pacto de Sangue (Double Indemnity), dirigido por Billy Wilder, não é apenas um filme de crime; é o manual definitivo do Cinema Noir. Com um roteiro afiado coescrito por Raymond Chandler, o filme subverteu as convenções da época ao colocar o espectador na mente de um assassino, explorando a fragilidade da moralidade humana sob o sol implacável de Los Angeles.
A estrutura narrativa é um exercício de inevitabilidade. O filme começa pelo fim: Walter Neff, um homem ferido e exausto, confessa seu crime em um gravador de escritório. Ao optar pelo flashback narrado em primeira pessoa, Wilder elimina o “quem fez” para focar no “como e por quê”. Essa escolha mergulha o público em um sentimento de fatalismo, onde o destino dos personagens já está selado, restando apenas observar a descida lenta e agonizante ao abismo.
No centro da trama está a relação tóxica entre Neff e Phyllis Dietrichson. Neff não é um criminoso de carreira, mas um homem comum cuja arrogância intelectual o leva a crer que conhece o sistema de seguros bem o suficiente para fraudá-lo. Phyllis, por sua vez, personifica a femme fatale arquetípica: fria, calculista e letal. Ela utiliza sua sexualidade como uma ferramenta de negociação, despertando em Neff um desejo que mistura luxúria e o desafio de cometer o “crime perfeito”. A psicologia aqui é de mútua exploração, onde o amor é substituído por uma parceria de conveniência sombria.
A temática da traição em Pacto de Sangue é multifacetada. Existe a traição óbvia contra o marido de Phyllis, mas a mais profunda é a traição interna. À medida que o plano avança, a confiança entre os amantes apodrece. O medo de serem descobertos transforma a paixão em paranoia. Além disso, há a traição de Neff contra Barton Keyes, seu mentor e figura paterna. A tensão do filme reside no fato de que Neff precisa enganar o único homem que ele realmente respeita, criando um conflito emocional que humaniza o protagonista enquanto ele se destrói.
Wilder utiliza o gênero para lançar um olhar cínico sobre a sociedade americana. O filme sugere que a respeitabilidade da classe média é uma fachada fina, facilmente rompida pela ganância. A estética visual, marcada pelo uso de sombras expressionistas, persianas que projetam barras de prisão nas paredes e ambientes enfumaçados ; reforça essa opressão. A iluminação chiaroscuro não é apenas estilística; ela reflete a alma dividida de Neff, oscilando entre a luz da decência e as trevas do crime.
O desfecho do filme é uma lição sobre a essência moral. A morte e a destruição não são apenas físicas, mas espirituais. O “Pacto de Sangue” do título original em português sela um destino onde não há vencedores. A cláusula de “indenização dupla”, que deveria garantir a riqueza, torna-se o instrumento que atrai a atenção obsessiva de Keyes, provando que, no universo de Wilder, o crime carrega em si a semente da própria ruína.
Pacto de Sangue permanece atual por entender que o verdadeiro horror não vem do desconhecido, mas das escolhas conscientes de pessoas comuns que decidem cruzar a linha entre a ética e o abismo.

Ficha Técnica de Pacto de Sangue (1944)

  • Título Original: Double Indemnity
  • Direção: Billy Wilder
  • Roteiro: Billy Wilder e Raymond Chandler
  • Elenco:
  • Fred MacMurray – Walter Neff
  • Barbara Stanwyck – Phyllis Dietrichson
  • Edward G. Robinson – Barton Keyes
  • Porter Hall – Jackson
  • Jean Heather – Lola Dietrichson
  • Tom Powers – Dietrichson
  • Byron Barr – Nino Zachetti
  • Richard Gaines – Norton
  • Fortunio Bonanova – Sam
  • John Philliber – Joe Pete
  • Gênero: Crime, Drama, Noir
  • Duração: 107 minutos
  • País de Origem: EUA
  • Idioma: Inglês
  • Estreia: 1944 (EUA)
  • Distribuidora: Paramount Pictures

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