Dominação Masculina no BDSM: consentimento voluntário ou opressão do patriarcado?

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Em um contexto global de avanços na igualdade de gênero e de questionamento constante das estruturas patriarcais, a prática de dominação masculina dentro do universo BDSM (Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo) emerge como um dos temas mais polarizadores da sexualidade contemporânea. Longe de ser mera fantasia erótica, essa dinâmica, em que um homem assume o papel de dominador e a parceira (ou parceiro) o de submisso, é construída sobre regras rígidas de consentimento explícito, negociação prévia e possibilidade de interrupção imediata. Mas será que ela reforça o machismo ou, ao contrário, oferece um espaço seguro para desconstruí-lo?

O BDSM não é novidade, mas ganhou muito mais visibilidade após o fenômeno literário e cinematográfico Cinquenta Tons de Cinza, que popularizou a imagem do homem poderoso e controlador. No entanto, a realidade da comunidade BDSM é bem diferente da ficção.

Tudo gira em torno do princípio SSC (Seguro, São e Consensual) ou RACK (Risk-Aware Consensual Kink). Antes de qualquer cena, dominador e submisso negociam limites, safewords (palavras de segurança) e aftercare (cuidado pós-sessão). O que parece, à primeira vista, uma reprodução da dominação masculina tradicional, ou seja, o homem no comando, a mulher entregue, é, na prática, uma troca de poder negociada em que o submisso frequentemente detém o controle real, pois basta uma palavra para parar tudo.

No Brasil, o interesse por essas práticas cresce de forma expressiva. Um estudo recente do aplicativo KinD, especializado em relações fetichistas, colocou o país em 6º lugar mundial em buscas por parceiros BDSM, atrás apenas de Estados Unidos, Canadá, Alemanha, Austrália e Índia. Pesquisa realizada em 18 grandes cidades brasileiras em 2010 já indicava que mais de 50% dos homens e 30% das mulheres já haviam experimentado ao menos um comportamento sexual não convencional, incluindo elementos de dominação e submissão.

O debate feminista sobre o tema é antigo e continua acalorado. Para algumas correntes radicais, a submissão feminina no BDSM nada mais seria do que a erotização da opressão patriarcal, uma forma de normalizar o controle masculino sobre o corpo da mulher. Autoras como Andrea Dworkin historicamente viam nessas práticas uma contradição direta com a luta feminista. Já outras vozes,como Gayle Rubin ou mesmo praticantes contemporâneas brasileiras, defendem o oposto: quando uma mulher escolhe conscientemente ser submissa em um ambiente de total segurança e confiança, ela está exercendo o maior ato de autonomia possível. “Submissas na cama, mas não na vida”, resumem muitas delas em depoimentos recorrentes. A dominação masculina no BDSM, nesse sentido, não seria reforço do patriarcado, mas uma encenação controlada que permite às mulheres explorar fantasias sem o risco real de violência.

Estudos psicológicos reforçam o aspecto positivo da prática quando feita de forma ética. Pesquisas da Universidade de Copenhagen e revisões científicas recentes indicam que praticantes de BDSM relatam maior satisfação sexual, redução de estresse, aumento da intimidade no casal e até benefícios emocionais semelhantes aos obtidos em terapia, como processamento de emoções intensas e construção de confiança profunda. Longe de serem “doentes” ou “traumatizados”, os adeptos costumam apresentar níveis de saúde mental iguais ou superiores à média da população.

Claro que riscos existem. A comunidade BDSM reconhece casos de abuso disfarçado de “kink” e insiste na importância de educação, vetting (avaliação de parceiros) e espaços seguros. No Brasil, grupos e eventos presenciais ou online têm se multiplicado exatamente para fomentar essa cultura de responsabilidade coletiva.

A dominação masculina no BDSM não é uma simples reprodução do poder patriarcal, na verdade é uma provocação a ele. Em um mundo onde as relações “baunilha” (convencionais) muitas vezes escondem desigualdades não negociadas, o BDSM obriga os envolvidos a falar abertamente sobre desejo, limite e poder. Seja como forma de catarse, de prazer intenso ou de subversão consciente. A prática revela que o verdadeiro controle nem sempre está onde a sociedade tradicional imagina. E, talvez, seja exatamente aí que resida sua maior potência: transformar a dominação em escolha, o controle em liberdade e o tabu em conversa franca e aberta.

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