Análise do filme “Matar ou Morrer” (1952)

Critica de Filmes

DireçãoFred Zinnemann

Elenco: Gary Cooper, Grace Kelly, Katy Jurado, Lloyd Bridges, Thomas Mitchell, Ian MacDonald, Lon Chaney Jr., Harry Morgan, Lee Van Cleef, Otto Waldis

Um clássico absoluto que transcende o tempo

Como um grande fã de westerns, eu diria que “Matar ou Morrer” é o meu filme favorito de todos os tempos nesse gênero; um clássico absoluto que transcende o tempo e continua relevante décadas após seu lançamento. Dirigido por Fred Zinnemann e estrelado por Gary Cooper no papel do xerife Will Kane, o filme de 1952 conta a história de um homem que, no dia de seu casamento e aposentadoria, descobre que um bandido que ele prendeu anos antes está voltando à cidade com três comparsas para se vingar. Em vez de fugir, Kane decide enfrentar a ameaça, mas se vê abandonado pela comunidade a qual pertencia. O que torna essa obra-prima tão especial é que ela funciona perfeitamente em camadas múltiplas: na mais básica, como uma narrativa tensa de honra e confronto no Velho Oeste, mas também como uma poderosa metáfora ao macartismo e à blacklist; a caçada aos supostos comunistas na indústria de Hollywood durante a Guerra Fria. O roteirista Carl Foreman, que foi ele próprio vítima da perseguição política, inseriu ao enredo uma crítica sutil à covardia coletiva perante a opressão, onde os cidadãos da cidade representam os profissionais de Hollywood que se calaram ou delataram colegas para evitar problemas com o Comitê de Atividades Antiamericanas.

A direção de Fred Zinnemann é um dos grandes destaques, especialmente considerando que se trata de uma produção de baixo orçamento. Zinnemann demonstra uma inventividade impressionante, transformando limitações em forças criativas. A edição é ótima, com transições espertas que mantêm o fluxo narrativo fluido e aumentam a tensão; nada é desperdiçado nesse filme de apenas 85 minutos. Um elemento que ele usa com maestria é a presença constante de relógios em planos do longa, marcando o tempo real do enredo (o filme se passa em tempo quase real). Além disso, esses relógios introduzem um senso de urgência incrível, com a chegada iminente do trem ao meio-dia simbolizando o prazo fatídico. Enquanto o tempo se esgota, acompanhamos a busca desesperada do xerife por aliados para enfrentar os quatro pistoleiros, o que amplifica a solidão e o drama moral de Kane.

O xerife Kane, interpretado por Gary Cooper, é um homem destemido, honrado e ético, que se nega a fugir, porém ele se mostra vulnerável, pois tem medo, e isso traz uma humanidade gigantesca ao personagem. Cooper captura essa dualidade com sutileza magistral, mostrando um herói que não é invencível, mas sim humano, com dúvidas e temores reais que o tornam um personagem crível. De certa maneira, pode-se dizer que, por esse fato, trata-se de um dos primeiros westerns revisionistas da história, subvertendo o arquétipo do cowboy heroico e infalível para explorar fragilidades psicológicas, abrindo o caminho para narrativas mais complexas no gênero.

A importância e influência de “Matar ou Morrer” são inegáveis, moldando praticamente todos os westerns subsequentes. Ele elevou o gênero a um patamar mais psicológico e alegórico, influenciando diretores como Sergio Leone e Clint Eastwood em seus retratos de heróis solitários e moralmente complexos. Um exemplo notável da relevância de “Matar ou Morrer” é o filme “Onde Começa o Inferno” (Rio Bravo, 1959), que foi uma resposta direta de Howard Hawks e John Wayne ao filme de Zinnemann. Tanto o diretor quanto o ator se revoltaram com a mensagem de “Matar ou Morrer”, especialmente a cena final onde o xerife joga sua insígnia no chão em desprezo pela comunidade que o abandonou. Para eles, isso representava uma traição aos valores tradicionais de lei e ordem dos EUA. “Onde Começa o Inferno” é outro grande western, mas surge como um contraponto conservador, enfatizando a lealdade social em oposição à solidão individualista de Zinnemann.

Ao transformar uma história aparentemente simples de confronto ao meio-dia em uma poderosa alegoria sobre coragem individual, covardia coletiva e o preço da integridade, Fred Zinnemann e Carl Foreman criaram algo muito maior que entretenimento. Criaram uma obra que trouxe uma mensagem que ainda provoca debates e reflexões. E com isso, o filme se mantém vivo, atual e insuperável.

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