O “ lanterninha” de cinema é mais uma profissão extinta no setor de entretenimento, algo que se tornou obsoleto há várias décadas. Mas, no passado, esse profissional era símbolo de sofisticação e considerado essencial para a experiência cinematográfica.
Para quem viveu os áureos tempos das salas de cinema de rua, o “lanterninha” é parte da memória afetiva dessa época. Esse profissional, dotado de uma lanterna, acompanhava quem chegava atrasado na sessão de cinema, sabia onde havia lugares vagos, indicava fileira e assento, e ajudava quem quisesse ir ao banheiro.
Normalmente, ele usava a luz da lanterna direcionada para baixo e era orientado a andar um pouco à frente dos clientes.
O “lanterninha” atuava como uma espécie de vigia, pois ajudava a controlar conversas altas e outros barulhos. Agia como fiscal de sala e segurança, coibindo casais de namorados mais indiscretos e pessoas que colocavam os pés nas poltronas da frente. Evidentemente, a função de censor, não agradava a todos.
O tempo áureo dos “lanterninhas” uniformizados ocorreu entre as décadas de 1950 e 1970, em salas de cinema por todo o Brasil. Em São Paulo, eles marcaram presença no Imperial (na Moóca), Ipiranga, Marabá (no Centro) e muitos outros. E no histórico Cinema São Luiz, no Recife, ajudando o público e evitando tumultos. Vale lembrar que essa sala de cinema, inaugurada em 1952, é um patrimônio cultural que foi retratado em Retratos Fantasmas (2023) e O Agente Secreto (2025), filmes dirigidos por Kleber Mendonça Filho.
Na segunda metade dos anos 1970, esses profissionais começaram a desaparecer dos cinemas do Brasil, e foram extintos entre as décadas 1980 e 1990.
Usher
Aqui, como nos Estados Unidos, os “lanterninhas” apresentavam-se uniformizados, alguns como soldados condecorados. Nos Estados Unidos eram conhecidos como “usher” e foram presença certa durante a Era de Ouro (1920-1960) nas salas de cinema.
Nessa época de glamour, os “ushers” eram símbolo de luxo e sofisticação. Eram, geralmente, rapazes jovens que usavam jaquetas militares com botões dourados e bonés – o que lhes conferia uma aura de autoridade. Além de guiar a plateia, eles usavam planilhas para fazer a gestão da lotação, averiguando os locais vazios e garantindo que os casais se sentassem juntos.
Também recolhiam os ingressos, auxiliavam no caso de objetos perdidos e eram responsáveis por localizar um espectador em caso de telefonemas urgentes, já que não havia celulares.
Aqui, como ali, cumpriam a função de zelar pelo silêncio e evitar tumultos.
Um dos primeiros trabalhos de Elvis Presley, foi como “usher”. Com a fama, o artista saiu das salas de cinema para as telas. Elvis percorreu um caminho contrário ao que acontece em A Rosa Púrpura do Cairo (1985), de Woody Allen. Neste filme delicioso, um misto de comédia e fantasia, o galã Tom Baxter (Jeff Daniels), literalmente sai das telas para viver um romance real com Cecilia (Mia Farrow).
Elvis foi “lanterninha” no cinema Loew’s State Theatre, em Memphis, em 1950 e em 1952. Em novembro de 1956, Presley fez sua estreia na telona com o filme Ame-me Com Ternura. E voltou à sala onde tinha trabalhado para assistir ao filme pelo menos duas vezes.
Um “usher” memorável nos Estados Unidos foi “George” do Melba Theater, em Batesville no Arkansas, onde trabalhou nas décadas de 1950 e 1960. Ele é lembrado por fumar um charuto, carregar sempre uma lanterna, controlar espectadores barulhentos e expulsar penetras. George levava muito a sério seu papel de manter a ordem, guiar os espectadores e zelar pela etiqueta dentro da sala de cinema.
O ator e comediante Bill Hader também trabalhou anteriormente como “lanterninha”. Ele foi despedido por dar spoiler do filme Titanic (1997) para uma audiência barulhenta. O ator B. D. Wong também foi “usher” em uma rede de cinemas de São Francisco. No início de suas carreiras, Barbra Streisand e Sylvester Stallone também trabalharam como “lanterninhas” em Nova Iorque.
Com o tempo, a iluminação dos degraus e corredores, e a mudança dos cinemas para salas menores, tornaram o “usher” um personagem dispensável nos cinemas americanos, desaparecendo quase por completo a partir dos anos 1970.
No Brasil, os “lanterninhas “ desapareceram pelos mesmos motivos.
Hoje, há um movimento pedindo a volta desses profissionais emblemáticos em discussões nas redes sociais de forma a controlar um público barulhento e o uso abusivo de celulares em salas de cinema.
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