Análise: Pokémon – O Filme

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Já sentiram aquela vontade de participar de algo que não foi da sua época? Uma febre, um momento, algo que ficou em alta antes de você nascer? Bom, pra mim, com certeza é a “PokeMania” do final dos anos 90s.

Quase como uma lenda, eu escuto sobre a Pokémania como se fosse um evento histórico, tão massivo que poucos fizeram questão de registrar. Lançado originalmente em 1996 no Japão, Pokémon, ou Pocket Monsters, é o tipo de franquia que dispensa apresentações. Toda criança sonhou, principalmente ao completar dez anos, em escolher seu inicial e se aventurar mundo afora, ganhando insígnias, vencendo desafios e sendo dos mestres o melhor. Apesar de seu estrondoso sucesso no Japão, a coisa explodiu mesmo em 1998, com a chegada de Pokémon Red Version e Pokémon Blue Version para o Game Boy no ocidente, junto das cartas e, principalmente, do anime.

O anime, que chegou aqui no ocidente antes dos jogos, acompanhava a história de Ash Ketchum e Pikachu, superando desafios, encontrando amigos e derrotando malfeitores, tudo isso para chegar à Liga Pokémon e se consagrar como um Mestre Pokémon. Antes pequenos pixels em uma tela de Game Boy, agora, graças ao anime, eram criaturas com personalidades, carisma e emoções — e, claro, cada um tinha seu favorito.

E então Pokémon domina o mundo. Está em todos os lugares: nas lancheiras, nas camisas, nos cadernos. Não se podia escapar do choque do Pikachu.

Mas por que toda essa introdução? Bom, porque o ápice de toda essa febre foi a estreia da franquia na tela grande.

Ash, Pikachu e Misty em cena de Pokémon – O Filme (Foto: Reprodução / The Pokémon Company)

Training Is Over

Dirigido por Kunihiko Yuyama e lançado originalmente em julho de 1998 no Japão, e em novembro de 1999 no resto do mundo, Pokémon: O Filme – Mewtwo Contra Ataca acompanha Ash Ketchum, Pikachu e seus amigos após receberem um convite para encontrar o autoproclamado maior treinador de todos os tempos. Ao confrontá-lo, descobrem se tratar de Mewtwo, um pokémon clone criado em laboratório.

Laços são testados em uma batalha sobre o próprio sentido da vida, um confronto que ameaça mudar a balança de poder do mundo.

De qual versão estamos falando?

Bom, existe uma grande discussão sobre qual é a versão definitiva desse filme. Isso porque, internacionalmente, a versão ocidental é distribuída pela já extinta 4Kids Entertainment. Hoje com uma reputação mista, a 4Kids era conhecida por distribuir boa parte dos animes da época aqui no ocidente, fazendo mudanças drásticas em seus diálogos, trilha e até removendo cenas, tudo para deixar mais em linha com o “público americano”.

E, no caso de Pokémon: O Filme, não foi diferente. As mudanças ficam principalmente no personagem Mewtwo, que teve praticamente todos os seus diálogos alterados em comparação ao original. Segundo produtores da época, isso foi uma forma de deixar o personagem com mais pinta de vilão e menos simpático do que na versão original.

Bom, vocês vão ver no decorrer desse artigo que eu acredito que ambas as versões chegam ao mesmo lugar e que as mudanças feitas pela 4Kids Entertainment acabam, involuntariamente, agregando ao conflito emocional do longa.

Ser ou não ser, eis a questão

Para mim, existem poucas animações que tocam nos temas de vida e morte com a delicadeza e profundidade desse longa. Tudo isso é graças a um personagem: Mewtwo.

Mewtwo, o pokémon clone criado em laboratório, em cena de Pokémon – O Filme (Foto: Reprodução / The Pokémon Company)


Criado em laboratório, clone de Mew, Mewtwo foi feito para ser o pokémon mais forte do mundo e, ao acordar pela primeira vez, diz as primeiras palavras que o iriam assombrar por todo o longa: “Quem sou eu?”


Uma arma? Um pokémon? Um clone? Um ser vivo?


Mewtwo não consegue se enxergar, tendo dificuldade de se aceitar como apenas vivo, acreditando ser apenas artificial. Inicialmente, ele quer provar sua força no campo de batalha, acreditando que esse seja seu validador, pois: se sou o mais forte, então todos são menos que eu.

Críticos da época acreditavam que, graças às mudanças da 4Kids Entertainment, Mewtwo se tratava de um antagonista confuso e indeciso, já que suas motivações parecem sempre estar em fluxo no decorrer do longa. Eu acredito que é justamente aí que entra a força do filme. Inicialmente querendo provar seu poder, Mewtwo decide criar clones de todos os pokémon presentes na arena, por acreditar que eles sejam mais fortes. Na verdade, essa decisão se trata de uma tentativa desesperada do personagem de achar qualquer tipo de validação, dessa vez com sua própria “família”.

Mewtwo é um personagem em constante sofrimento, lutando contra si mesmo, deixando sua tristeza e solidão guiarem suas ações, e tudo isso muda com a chegada de Ash Ketchum e Pikachu.

Ash e Pikachu em cena de Pokémon – O Filme (Foto: Reprodução / The Pokémon Company)

A mesma lua, o mesmo céu

Ash Ketchum, um garoto de apenas 10 anos de idade, fica frente a frente com o ser mais forte do mundo, conseguindo tocá-lo pela primeira vez. Não, nenhum treinador ou pokémon presentes na arena é capaz de derrotar Mewtwo, mas Ash é diferente. Seu laço com Pikachu, seu ímpeto para entrar no confronto e proteger todos ali, clones ou não, mexe profundamente com Mewtwo. Pela primeira vez, ele está frente a frente com alguém que valoriza todos os seres vivos, que o reconhece, fazendo-o questionar: se estamos todos vivos, qual o motivo da luta?

Nas falas de Meowth:
“Dividimos o mesmo ar, o mesmo céu, as mesmas estrelas. Se parássemos de enxergar o que temos de diferente e passássemos a olhar o que temos em comum, quem sabe…”

Meow e seu clone em cena de Pokémon – O Filme (Foto: Reprodução / The Pokémon Company)

Brother, my brother…

No fim, o clímax do filme não está no campo de batalha, e sim nas crenças de Mewtwo, que passa a enxergar a si mesmo pela primeira vez. Se esse texto ainda não deixou claro: sim, esse filme carrega uma grande importância para mim, sendo o filme para o qual eu volto quando o mundo parece pesado e eu preciso de respostas. Suas reflexões sobre vida não são o tipo de coisa que vemos com tanta frequência em animações voltadas ao público infantil hoje em dia, que muitas vezes subestimam a capacidade das crianças de entender temas como vida e morte.

Para mim, independente da versão, Pokémon: O Filme – Mewtwo Contra Ataca é uma das melhores animações de todos os tempos, um exemplo de como uma IP pode ser utilizada para ir além de seu propósito inicial.

Finalizo esse texto com a fala mais marcante do longa:
“Agora eu percebo que as circunstâncias de um nascimento são irrelevantes. É o que você faz com o dom da vida que determina quem você é.”

Mewtwo e Mew observam o campo de batalha em cena de Pokémon – O Filme (Foto: Reprodução / The Pokémon Company)

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