Até que enfim o governo brasileiro tomou consciência de que dados macroeconômicos positivos não necessariamente o são para o cidadão comum.
A ficha caiu e o governo federal resolveu tomar alguma providência.
O Brasil tem inflação baixa (variação de preços de um período qualquer, normalmente anual), mas custo de vida alto (nível de preço de produtos e serviços), fenômeno comum em países “desenvolvidos”. Vá a Zurich, Londres, Singapura, Tel Aviv ou Tóquio: inflação baixa, mas preços elevados.
A questão é que lá no chamado “primeiro mundo” a renda de salário é alta, mas as taxas de juros são baixas e o consumidor normalmente se endivida sem explodir seu fluxo de caixa.
Aqui no Brasil a renda do salário é relativamente mais baixa, mesmo que esteja aumentando e, para piorar, as taxas de juros são altíssimas para o consumidor.
Ou seja, mesmo com taxa de desemprego baixa, inflação controlada, políticas públicas irrigando renda, a percepção do sucesso das macro políticas econômicas esbarra no alto nível de endividamento das pessoas.
Dever sem perspectiva de dar conta de pagar a dívida tira o dono, destrói famílias, provoca suicídio, etc. e forma opinião das pessoas sobre os governos de plantão.
O “humor”, o “clima”, a opinião sobre a economia brasileira é que não está bom, mesmo estando bom nas variáveis macro da economia, por mais paradoxal que seja.
Dever, de per si, não é o problema. O modo de produção capitalista potencializa o crédito como instrumento de antecipação de consumo. E dá-lhe propaganda massacrando as pessoas 24 horas por dia para comprar, comprar, comprar…agora no celular, ao alcance dos olhos o tempo todo.
Nossa lógica economicista reforça a importância do consumo pois ele gera venda, o varejista compra do atacadista, este compra do fabricante ou importa de fora do país, girando a roda da economia, gerando emprego e renda.
O problema é o custo do endividamento, que no Brasil é escorchante. Financiar, refinanciar e “rolar” qualquer dívida é muito caro para o consumidor, comprometendo sua renda com o pagamento deste custo de capital.
O cidadão pega crédito em banco para pagar dívida de outro banco, numa ciranda sem fim, quando não se endivida com agiota…Curiosamente muitas vezes a agiotagem cobra menos que os agentes econômicos formais: bancos e financeiras. Ao fim e ao cabo, quem é o agiota?
Por estas e por outras a mercantilização de tudo no capitalismo, particularmente a mercantização da própria moeda, ou seja, o crédito, estimulou que todo comércio ganhe dinheiro com o endividamento das pessoas.
Há um enorme estímulo ao endividamento e quase nunca se dá desconto para comprar à vista. Por que? Porque o fornecedor ganha com a venda do produto ou do serviço em si, mas também ganha com o encargo financeiro cobrado no parcelamento. As grandes redes de comércio passaram a ter suas próprias financeiras e bancos.
Não basta reduzir a taxa básica (SELIC), que é condição para a queda das demais taxas que incidem no custo da captação de empréstimos e financiamentos de todo tipo, de aquisições compradas com crediário, cartão de crédito ou cheque especial, até o financiamento de viagens, automóveis, imóveis, etc.
Não basta apenas aumentar a oferta de postos de trabalho e melhorar o nível de renda, por mais importante que sejam.
Por que? Porque o problema está no nível dos preços de produtos e serviços que são custeados por crédito caríssimo.
Seu incremento de renda tem uma curva de aceleração…seu custo financeiro tem uma outra curva de aceleração, muito mais inclinada.
É preciso fazer o gasto com crédito usado para comprar o que se precisa caber no orçamento das famílias.
O que fazer?
Com a palavra o governo federal.
Vamos adiante, lutando!
Rodrigo Botelho Campos – economista
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