Um thriller tenso e eficaz, mas…
Em “O Declínio” (2020), um grupo de desconhecidos se reúne num isolado campo de treinamento de sobrevivência organizado por Alain (Réal Bossé), um youtuber carismático especializado em preparar pessoas para um eventual colapso mundial. O que começa como um curso técnico para enfrentar pandemias, desastres naturais, crises sociais e possíveis confitos bélicos rapidamente se transforma em um pesadelo, quando um acidente desencadeia paranoia, violência e escolhas morais extremas.
O diretor Patrice Laliberté, que também assina o roteiro ao lado de Charles Dionne e Nicolas Krief, insere o filme num mundo já tomado pelo medo. Vivemos uma era em que a possibilidade de catástrofes globais alimenta uma neurose coletiva, e criadores de conteúdo, se aproveitamento, e lucram com esse pânico. O longa captura bem essa lógica ao transformar um influenciador em líder quase messiânico, capaz de guiar pessoas comuns em nome da sobrevivência.
“O Declínio” começa muito bem, com a encenação de uma fuga de emergência em família e a apresentação do campo de treinamento. Alguns personagens ganham contornos mais definidos, outras são pouco desenvolvidos, mas o ponto de virada é eficiente, chocante e surpreendente. A partir daí, o filme poderia mergulhar com mais profundidade nos dilemas éticos e morais dos participantes, mas opta por se firmar como um thriller de “gato e rato”. Perseguições na neve, estratégias de caça e tentativas de fuga bem filmadas, que mantêm a tensão alta.
Tecnicamente, o trabalho de Patrice Laliberté é competente. A montagem imprime ritmo, a fotografia de Mathieu Laverdière cria uma sensação de claustrofobia em plena natureza aberta, e a opção por pouco gore, privilegiando o extra-campo, sugere horrores mais do que os exibe. A trilha sonora permanece discreta, reforçando a paranoia sem soar manipuladora.

No elenco, além do excelente Réal Bossé como Alain, destacam-se Marc-André Grondin (Antoine), Marie-Evelyne Lessard (Rachel), Guillaume Cyr, Marilyn Castonguay, Isabelle Giroux e Marc Beaupré, que compõem o grupo, dividido entre medo, oportunismo e desespero. Um dos movimentos mais interessantes do filme é a mudança de foco dramático no ato final, quando Rachel, personagem feminina, surpreendentemente assume de fato o protagonismo (a lá Hitchcock). Essa virada, bem construída, reforça o empoderamento feminino não como “cumprimento de agenda”, mas como consequência orgânica da trama. É ela quem passa a tomar decisões, enfrentar a violência e reescrever as regras do jogo de sobrevivência.
No fim, “O Declínio” é um thriller tenso e eficaz, que faz bom uso de seu cenário e do contexto contemporâneo de medo global. Fica o sentimento de que havia espaço para um questionamento mais profundo sobre moralidade e responsabilidade da influência digital, mas, mesmo sem alcançar todo o seu potencial, o filme entrega um entretenimento competente. contudo, resta a sensação de uma ótima oportunidade de vermos um filme denso e reflexivo ser desperdiçada.
“O Declínio” está dispoível no catálogo da Netflix.
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