Quem diria que haveria um Mersault da geração Z? No novo filme de François Ozon, o personagem principal do livro O Estrangeiro, do franco-argelino Albert Camus, é interpretado por Benjamin Voisin. Aos 29 anos, o ator dá vida àquele que ainda hoje é sinônimo de absurdismo, existencialismo e niilismo. Sua excelente atuação é marcada tanto pelas falas como pelo silêncio e pausas.
A obra de Camus continua atual e a cada releitura surge uma nova epifania, um novo insight. Arthur Mersault é um homem apático e alheio aos acontecimentos e à própria vida. Ele é um estrangeiro por ser um francês que vive na Argélia ocupada nos anos 1930? Ou por que é indiferente à morte da mãe, ao amor da namorada e a tudo o que lhe ocorre?
Nessa adaptação, essas questões são apresentadas por meio de uma fotografia lindíssima que, mesmo em preto e branco, privilegia as tomadas de dias ensolarados. Aliás, praia, sol e o calor são elementos presentes nesta remake de François Ozon. Vale lembrar que O Estrangeiro já havia sido filmado em 1967 por Luchino Visconti, mestre do neorrealismo italiano, com Marcello Mastroianni no papel de Mersault.
Os contrastes em preto e branco e tomadas em close up de alguns personagens remetem ao expressionismo alemão. E há um ou outro take que lembra bastante a Joana D’Arc de Renée Maria Falconettti, do filme mudo A Paixão de Joana D’Arc (1928) do dinamarquês Carl Theodore Dreyer.
Interessante observar que a personagem de Falconetti é um exemplo de fé, martírio e expressão de dor – algo totalmente oposto ao que vemos em O Estrangeiro. No entanto, ambos os filmes tem como ponto em comum um julgamento inusitado. Joana D’Arc foi julgada e condenada à morte por heresia e feitiçaria. Ela se recusava a submeter suas visões e ações à interpretação da igreja. O mesmo ocorre com Mersault quando é julgado pela morte de um homem e se recusa a aceitar as ideias e o acolhimento de um padre.
No plano do absurdo, podemos recordar que Joana D’Arc lutou para defender a França e foi condenada à fogueira. Já o personagem Mersault é julgado mais pela indiferença diante da morte da mãe que pelo assassinato do jovem árabe.
O filme de François Ozon dá destaque maior às personagens femininas que o próprio livro de Camus. Especialmente à namorada vivida com inspiração por Rebecca Marder; e a Djemila, irmã do rapaz assassinado, representada por Hajar Bouzaouit.
Há também na obra uma crítica evidente ao colonialismo francês na Argélia em cenas que mostram o preconceito, as diferenças sociais entre franceses e árabes, e a proibição de “nativos” em salas de cinema.
O elenco conta ainda com Pierre Lotin, Swann Arlaud, Denis Lavant, Christophe Malavoy e Nicolas Vaude.
O Estrangeiro entra em cartaz nos cinemas a partir de 16/04.
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Eu ainda não vi essa versão, mas confesso que fiquei bem interessada. Ótima narrativa como sempre! Parabéns pela sua interpretação do filme. É como se eu estivesse ao seu lado vendo você falar desse filme.
Eheheh! Obrigada Mirian!
Parabéns pela análise Bia!
Obrigada, querida Shan!
Muito interessante sua análise Bia. Com certeza, assim que entrar em cartaz, vou assistir.
Obrigada, Jean!
Parabéns pela análise Bia! Não assisti o primeiro, nem li o livro, mas conheci o enredo, que inspirou uma música do The Cure que eu adoro:” Killing an arab “. Suas correlações estão muito bem inseridas!
Obrigada, Natasha!
Não assisti ainda essa adaptação. O Camus é um dos meus escritores preferidos! O Estrangeiro é um dos meus livros preferidos do autor, só perde para A Queda. Parabéns pela resenha!
Obrigada pelos comentários, Eduardo!
Parabéns pela análise,confesso que não vi essa versão, mais entrou na minha playlist
Obrigada, Clebio!
Deu saudades do livro de Camus ,vontade de ver o filme da resenha e intrigado como não vi a versão do Visconti…saborosa crítica… parabéns Bia!
Não li o livro e nem assisti o filme, mas lendo a sua análise farei os dois!
Interessante, realmente vem a minha mente Joana Darc do Dreyer, com a magnífica Falconetti
Interessante mesmo! No filme você consegue identificar algumas expressões semelhantes! Obrigada pelo comentário, Rildo!