Análise do filme: O Estrangeiro (2025)

Critica de Filmes

Quem diria que haveria um Mersault da geração Z? No novo filme de François Ozon, o personagem principal do livro O Estrangeiro, do franco-argelino Albert Camus, é interpretado por Benjamin Voisin. Aos 29 anos, o ator dá vida àquele que ainda hoje é sinônimo de absurdismo, existencialismo e niilismo. Sua excelente atuação é marcada tanto pelas falas como pelo silêncio e pausas.

A obra de Camus continua atual e a cada releitura surge uma nova epifania, um novo insight. Arthur Mersault é um homem apático e alheio aos acontecimentos e à própria vida. Ele é um estrangeiro por ser um francês que vive na Argélia ocupada nos anos 1930? Ou por que é indiferente à morte da mãe, ao amor da namorada e a tudo o que lhe ocorre?

Nessa adaptação, essas questões são apresentadas por meio de uma fotografia lindíssima que, mesmo em preto e branco, privilegia as tomadas de dias ensolarados. Aliás, praia, sol e o calor são elementos presentes nesta remake de François Ozon. Vale lembrar que O Estrangeiro já havia sido filmado em 1967 por Luchino Visconti, mestre do neorrealismo italiano, com Marcello Mastroianni no papel de Mersault.

Os contrastes em preto e branco e tomadas em close up de alguns personagens remetem ao expressionismo alemão. E há um ou outro take que lembra bastante a Joana D’Arc de Renée Maria Falconettti, do filme mudo A Paixão de Joana D’Arc (1928) do dinamarquês Carl Theodore Dreyer.

Interessante observar que a personagem de Falconetti é um exemplo de fé, martírio e expressão de dor – algo totalmente oposto ao que vemos em O Estrangeiro. No entanto, ambos os filmes tem como ponto em comum um julgamento inusitado. Joana D’Arc foi julgada e condenada à morte por heresia e feitiçaria. Ela se recusava a submeter suas visões e ações à interpretação da igreja. O mesmo ocorre com Mersault quando é julgado pela morte de um homem e se recusa a aceitar as ideias e o acolhimento de um padre.

No plano do absurdo, podemos recordar que Joana D’Arc lutou para defender a França e foi condenada à fogueira. Já o personagem Mersault é julgado mais pela indiferença diante da morte da mãe que pelo assassinato do jovem árabe.

O filme de François Ozon dá destaque maior às personagens femininas que o próprio livro de Camus. Especialmente à namorada vivida com inspiração por Rebecca Marder; e a Djemila, irmã do rapaz assassinado, representada por Hajar Bouzaouit.

Há também na obra uma crítica evidente ao colonialismo francês na Argélia em cenas que mostram o preconceito, as diferenças sociais entre franceses e árabes, e a proibição de “nativos” em salas de cinema.

O elenco conta ainda com Pierre Lotin, Swann Arlaud, Denis Lavant, Christophe Malavoy e Nicolas Vaude.

O Estrangeiro entra em cartaz nos cinemas a partir de 16/04.

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16 thoughts on “Análise do filme: O Estrangeiro (2025)

  1. Eu ainda não vi essa versão, mas confesso que fiquei bem interessada. Ótima narrativa como sempre! Parabéns pela sua interpretação do filme. É como se eu estivesse ao seu lado vendo você falar desse filme.

  2. Parabéns pela análise Bia! Não assisti o primeiro, nem li o livro, mas conheci o enredo, que inspirou uma música do The Cure que eu adoro:” Killing an arab “. Suas correlações estão muito bem inseridas!

  3. Não assisti ainda essa adaptação. O Camus é um dos meus escritores preferidos! O Estrangeiro é um dos meus livros preferidos do autor, só perde para A Queda. Parabéns pela resenha!

  4. Deu saudades do livro de Camus ,vontade de ver o filme da resenha e intrigado como não vi a versão do Visconti…saborosa crítica… parabéns Bia!

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