Espetáculo da mundana companhia, com Aury Porto e direção de Janaína Leite, transforma vivência com o Alzheimer em experiência cênica que rompe com a narrativa tradicional
Não há uma história sendo contada do começo ao fim. Não há uma explicação direta sobre o Alzheimer. E também não há qualquer tentativa de conduzir o espectador por um caminho confortável. É justamente nessa recusa — à linearidade, às respostas fáceis e ao didatismo — que o espetáculo “Meu Nome: Mamãe” encontra sua força ao chegar a Jundiaí, no próximo dia 29 de abril, dando continuidade à circulação pelo interior paulista.
Após uma passagem consistente por Guarulhos, onde estabeleceu um forte diálogo com o público, a montagem segue agora para Jundiaí reafirmando sua proposta: não explicar, mas provocar. Não organizar a memória, mas expor suas falhas, seus desvios e suas reinvenções.
Idealizado e interpretado por Aury Porto, o espetáculo nasce de uma experiência pessoal — a convivência com a mãe diagnosticada com Alzheimer há quase duas décadas —, mas se afasta rapidamente de qualquer formato autobiográfico tradicional. Em cena, o que se constrói é um campo instável, onde lembranças surgem de forma fragmentada, se interrompem, se contradizem e, muitas vezes, desaparecem antes de se completar.
“A memória, quando começa a falhar, não afeta só o que a gente lembra, mas também a forma como a gente se reconhece”, afirma o ator. “O espetáculo tenta se aproximar desse estado, onde as coisas deixam de ser fixas e passam a se transformar o tempo todo.”
Essa estrutura descontínua se reflete diretamente na experiência do público. Em vez de acompanhar uma narrativa, o espectador é convidado a lidar com lacunas, silêncios e repetições — elementos que, longe de serem falhas da encenação, são parte central da proposta.
“Não me interessava contar essa história de forma organizada, porque a própria vivência não é organizada”, comenta Aury Porto. “O que me interessava era criar um espaço onde essa instabilidade pudesse existir.”
A direção de Janaína Leite potencializa essa escolha ao construir uma encenação que tensiona realidade e ficção sem hierarquizar nenhuma das duas. O material pessoal não é apresentado como verdade definitiva, mas como matéria em constante transformação, aberta ao olhar e à interpretação de quem assiste.
“A cena não está preocupada em explicar o Alzheimer, mas em criar uma experiência”, aponta a diretora. “E essa experiência passa por desconcertar o espectador, tirar ele de um lugar de controle.”
A dramaturgia de Claudia Barral organiza o espetáculo a partir de fragmentos que se sobrepõem, criando uma lógica própria, mais próxima da sensação do que da narrativa. A cena é atravessada ainda pela direção de arte de Flora Belotti, pela trilha sonora original de Rodolfo Dias Paes (DiPa) e pela iluminação de Ricardo Morañez, compondo um ambiente que oscila entre o cotidiano e o deslocamento.
Ao chegar a Jundiaí, o espetáculo também amplia o debate sobre temas ainda pouco enfrentados publicamente, como o envelhecimento e o cuidado. Sem recorrer a abordagens convencionais ou discursos prontos, a montagem convida o público a encarar essas questões de forma direta — e, muitas vezes, desconfortável.
“A gente evita falar sobre essas coisas, como se elas não fossem fazer parte da vida”, reflete Aury Porto. “Mas elas já fazem. O espetáculo é uma tentativa de olhar para isso sem filtro.”
O humor, quando surge, não suaviza a experiência. Pelo contrário: aparece como elemento de tensão, revelando contradições e aproximando o público de situações que oscilam entre o reconhecimento e o estranhamento.
Mais do que contar uma história, “Meu Nome: Mamãe” propõe um estado de presença. Um tipo de encontro em que o sentido não está dado, mas precisa ser construído — ou aceito como incompleto.
A circulação segue em maio para Campinas, consolidando uma trajetória que amplia o acesso ao teatro contemporâneo e reforça o diálogo com diferentes públicos no interior paulista.
SERVIÇO – JUNDIAÍ
Espetáculo “Meu Nome: Mamãe”
Data: 29 de abril
Horário: (a confirmar)
Local: (a ser anunciado)
Classificação indicativa: 12 anos
PRÓXIMA CIDADE
09 de maio
- Campinas
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