O Cinema de Chantal Akerman🎥🎬

Cinema

Marcelo Kricheldorf

Nascida em Bruxelas em uma família de judeus poloneses sobreviventes do Holocausto, Akerman decidiu ser cineasta aos 15 anos após assistir Pierrot le Fou, de Jean-Luc Godard. Sua carreira de mais de 40 filmes começou com o curta Saute ma ville (1968), onde ela própria atua explodindo sua cozinha — e, simbolicamente, as convenções domésticas. Em 2022, seu filme Jeanne Dielman foi eleito o melhor filme de todos os tempos pela revista Sight & Sound, tornando-a a primeira mulher a liderar a lista.
Akerman é a mestra do “tempo morto”, onde a duração real das ações é preservada. Ela valoriza o intervalo e a espera, permitindo que o espectador sinta a passagem de cada segundo. Em vez de cortes rápidos, utiliza planos longos que convidam à contemplação da monotonia, transformando o tédio em uma ferramenta de conscientização sobre a vida cotidiana.
Embora rejeitasse rótulos limitadores, Akerman foi um ícone da segunda onda do feminismo. O seu “Female Gaze” não é apenas filmar mulheres, mas posicionar a mulher como sujeito ativo do olhar. Em Jeanne Dielman, a câmera respeita o espaço da protagonista sem “cortá-la em pedaços” para o prazer voyeurista, focando no trabalho doméstico invisível com rigor geométrico.
Para Akerman, a casa é um cenário de dualidade: um refúgio da intimidade que frequentemente se torna um cativeiro. Seus enquadramentos muitas vezes mostram janelas dentro de janelas, criando uma mise en scène que enfatiza o confinamento do corpo feminino no espaço doméstico.
O trauma do Holocausto permeia sua obra de forma intersticial — não através de arquivos, mas pelos afetos e brechas. O silêncio geracional e a ausência de testemunho direto em filmes como D’est e Là-bas refletem a dificuldade de processar a história familiar e o impacto do genocídio na psique dos sobreviventes e seus descendentes.
Cidades como Nova York (News from Home), Bruxelas e Paris são filmadas como entidades vivas que reforçam a solidão e o anonimato. A cineasta utiliza o ambiente urbano para destacar o isolamento do indivíduo, onde a arquitetura da cidade muitas vezes espelha a geografia interna de suas personagens.
Akerman transita entre a ficção e o documentário sem barreiras rígidas. Ela utiliza elementos autobiográficos (como cartas de sua mãe em News from Home) para construir narrativas que parecem reais, ao mesmo tempo em que filma a realidade com um rigor estético que a aproxima da ficção.
A estética de Akerman é marcada pela câmera estática e pelo rigor geométrico. Seus planos são frontais, baixos e sem contraplanos, evitando a manipulação emocional do espectador e mantendo uma integridade técnica que respeita a matéria do mundo antes de ser filmada.
A figura materna é o eixo gravitacional de sua obra. Desde as cartas lidas em News from Home até seu testamento cinematográfico No Home Movie (2015), Akerman explora a simbiose, o afeto e a dor da separação entre mãe e filha, tratando a mãe como a guardiã de uma memória que a cineasta busca incessantemente.
Akerman descrevia-se como alguém que “não pertence a lugar nenhum”. Sua obra reflete o sentimento de não pertencimento e a condição do estrangeiro, movendo-se constantemente entre fronteiras geográficas e identitárias, capturando a essência do exílio moderno.
No campo documental, ela pratica a observação direta, recusando-se a intervir ou explicar a realidade. Filmes como D’est mostram apenas corpos e espaços em movimento, permitindo que a imagem fale por si mesma e que a política emerja da simples presença das coisas no tempo.

Aqui está uma lista de alguns de seus filmes mais notáveis:

  • Curtas-metragens
  • Saute ma ville (1968)
  • La Chambre 1 (1972)
  • La Chambre 2 (1972)
  • Longas-metragens
  • Hotel Monterey (1972)
  • Je, tu, il, elle (1974)
  • Jeanne Dielman, 23 quai du Commerce, 1080 Bruxelles (1975)
  • News from Home (1976)
  • Les Rendez-vous d’Anna (1978)
  • Toute une nuit (1982)
  • Nuit et jour (1991)
  • D’Est (1993)
  • Un divan à New York (1996)
  • Sud (1999)
  • La Captive (2000)
  • De l’autre côté (2002)
  • No Home Movie (2015)

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