Marcelo Kricheldorf
Lançado em 1972, o filme “Solaris”, dirigido pelo mestre soviético Andrei Tarkovsky, permanece como um dos marcos mais profundos do cinema mundial. Embora frequentemente comparado a “2001: Uma Odisseia no Espaço”, de Kubrick, Solaris trilha um caminho oposto: enquanto o filme americano olha para as estrelas em busca do próximo passo na evolução tecnológica e evolutiva, a obra de Tarkovsky volta o olhar para dentro, utilizando o cosmos como um pretexto para explorar os abismos da psique humana.
A narrativa acompanha o psicólogo Kris Kelvin (Donatas Banionis), enviado a uma estação espacial decadente que orbita o planeta Solaris. O objetivo de Kelvin é decidir se a missão científica, que estuda o oceano senciente do planeta há décadas, deve ser encerrada devido à instabilidade mental da tripulação. Ao chegar, Kelvin descobre que o oceano não é apenas uma massa de matéria, mas uma inteligência capaz de ler o subconsciente dos tripulantes e materializar suas memórias mais dolorosas na forma de “visitantes” físicos. Para Kelvin, essa manifestação surge como Hari (Natalya Bondarchuk), sua esposa que cometeu suicídio anos antes, forçando-o a um ciclo de luto, culpa e ressurreição.
Para Tarkovsky, a exploração do espaço é uma extensão da arrogância humana. Em uma das cenas mais emblemáticas, o Dr. Snaut afirma: “Não precisamos de outros mundos. Precisamos de um espelho”. O filme argumenta que a humanidade busca o contato com civilizações alienígenas, mas é incapaz de lidar com seus próprios fantasmas internos. A tecnologia e a ciência, representadas pela estação fria e metálica, falham miseravelmente diante do oceano de Solaris, que não responde a cálculos, mas a impulsos emocionais e memórias reprimidas.
O cerne filosófico do filme reside na figura de Hari. Ela não é a esposa real de Kelvin, mas uma cópia tecida a partir das lembranças dele. Através da atuação magistral de Natalya Bondarchuk, testemunhamos a transformação de um simulacro em um ser consciente. À medida que Hari percebe que não é humana, ela paradoxalmente se torna “mais humana” que os próprios cientistas, demonstrando uma capacidade de sacrifício e amor que Kelvin, inicialmente frio e pragmático (vivido com contenção precisa por Donatas Banionis), havia esquecido. A obra questiona: o que nos define? Nossa biologia ou nossa capacidade de sofrer e amar?
A direção de Tarkovsky é deliberadamente lenta, forçando o espectador à introspecção. O uso de planos longos e a inclusão de elementos terrestres na estação espacial — como o som da água, livros antigos e a reprodução de pinturas de Pieter Bruegel — servem para ancorar a narrativa na herança cultural da Terra. A natureza é um personagem onipresente: a chuva, as algas ondulantes e a terra úmida contrastam com o isolamento esterilizado do espaço, simbolizando o desejo eterno de retorno ao “lar”.
O desfecho de “Solaris” é uma das metáforas mais poderosas do cinema. Kelvin, ao encontrar uma forma de “paz” com sua própria culpa, parece retornar à casa de seu pai na Terra. No entanto, a câmera se afasta para revelar que ele está, na verdade, em uma ilha criada pelo oceano de Solaris.
Este final encapsula a tese de Tarkovsky e a influência da filosofia existencialista: o homem nunca pode realmente escapar de si mesmo. Solaris não é um filme sobre planetas distantes, mas sobre a impossibilidade de conhecer o universo antes de conhecermos nosso próprio coração. É uma obra que não oferece respostas fáceis, mas que permanece viva como um lembrete de que a maior fronteira a ser explorada não é o espaço sideral, mas a vastidão da alma humana.
Ficha Técnica de “Solaris” (1972)
- Título original: Солярис (Solyaris)
- Direção: Andrei Tarkovsky
- Roteiristas: Andrei Tarkovsky e Fridrikh Gorenshtein, baseado no romance “Solaris” de Stanislaw Lem
- Elenco principal:
- Donatas Banionis como Kris Kelvin
- Natalya Bondarchuk como Hari
- Jüri Järvet como Dr. Snaut
- Vladislav Dvorzhetsky como Henri Berton
- Gênero: Ficção Científica, Drama
- Duração: 2h 45min (165 minutos)
- País de origem: União Soviética
- Idioma: Russo
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